Capítulo 44



O corpo de Amy estava esparramado no duro chão de terra da caverna. Aos poucos, a consciência ia retornando à sua mente e o cheiro de terra molhada ia dominando seu olfato. Os dedos de suas mãos começavam a responder aos impulsos elétricos de seus neurônios e sua garganta, seca, gritava de sede.  Seus ouvidos, de repente, começaram a perceber ruídos estranhos. Ao concentrar-se melhor, a garota percebeu que se tratava de gotas de água caindo sobre uma poça, de forma desregulada. Os minutos foram se passando e Amy relutou em abrir os olhos, talvez por medo de não estar sozinha naquele local, que ela não sabia onde era.  Preferiu ter a certeza de que não havia ninguém por perto.

Outros bons minutos se passaram. Ainda havia gotas caindo na poça de água em espaços inconstantes de tempo. E este era o único barulho que acompanhava o tédio da garota. A paciência era uma das virtudes que Amy mais fazia questão de ter, fazia parte do treinamento da Equipe Rocket. Os agentes deveriam ser pacientes. A ansiedade não era permitida em uma missão, podia atrapalhar toda uma operação gigantesca e até mesmo os agentes mais experientes podiam passar por isso. Mas não Amy. Ela era esperta.

Mais minutos se passaram. Amy resolveu então abrir seus olhos azuis. Olhando do chão, percebeu então que estava sozinha ali, não havia nenhum par de pés próximo a ela. A garota então decidiu levantar-se cautelosamente do chão. Seus braços e pernas formigavam, parecia que ela tinha ficado dias sem mexê-los. De fato, ela não sabia quanto tempo havia ficado apagada, só tinha certeza de que precisava sair dali.

Ela então olhou para os lados e tentou localizar-se. Havia uma grande poça d’água próxima a ela, das paredes de pedra e terra escorriam finas linhas de água, o que fez Amy suspeitar de que ela estava debaixo de uma enorme quantidade de água, seja de um lago ou... Da cachoeira que ela esteve anteriormente.

Uma luz acendeu na mente de Amy. A garota pegou uma de suas PokéBolas e liberou sua Venonat. A pequena Pokémon encarou sua treinadora, ansiosa para ouvir suas ordens.

— Venonat, você por favor poderia localizar pra mim a saída mais próxima? — pediu Amy, gentilmente.

A Pokémon Inseto prontamente afirmou com a cabeça e concentrou-se. Usou suas antenas para tentar mapear os caminhos sinuosos e diversos da montanha, tentando sentir os raios de sol do lado de fora. Seus olhos começaram a exibir traços e linhas que se assemelhavam a mapas. Amy observou atentamente os olhos de seu Pokémon, o mapa desenhado ali seria bastante útil para se localizar e encontrar a saída daquele local. Ela não sabia se Ethan estava bem, mas com certeza ele seria inteligente para achar o caminho até o topo sem se preocupar com ela.

A garota e seu Pokémon começaram a caminhar pelos tortuosos caminhos de pedra e terra, sempre atentos a uma possível surpresa que poderiam enfrentar. Algum Pokémon selvagem, algum treinador que poderia desafiá-la... Tudo era possível, mesmo que improvável. O que mais era esquisito, de fato, era que a caverna e a montanha eram bastante silenciosas. Não parecia haver formas de vida presentes ali. Amy e Venonat prosseguiam em silêncio, procurando seguir o caminho dos mapas, subindo o terreno íngreme da montanha, tentando localizar-se em meio aos mapas que sua Pokémon exibia em seus olhos, comparando-o com o cenário em que estavam. Logo, a garota voltou a encontrar a cachoeira que a separou de Ethan e Eusine. Encarando a majestosa queda d’água do alto, Amy pode ter uma bela visão do local em que estava. Ao passar os olhos pelos arredores, notou algo que instantaneamente chamou sua atenção: O boné de Ethan, encostado sozinho em um canto do andar de baixo. A garota soltou uma exclamação e pegou uma PokéBola.

— Saia, Pidgeot!

A grande ave saiu da cápsula e alargou suas poderosas asas. Amy saltou nas costas de sua Pokémon e voou para o andar de baixo, onde pulou no chão, próximo ao objeto. A garota caminhou até o boné e o recolheu cuidadosamente. Olhou para os lados, tentando ver algum sinal de Ethan, mas só havia ela e seus Pokémon ali naquele ambiente hostil. Mas ela sentiu uma presença próxima a ela. Uma aura poderosa arrepiou todos os pelos do corpo de Amy, um arrepio desceu sua espinha, seu estômago revirou. Próximo a ela, estava um Pokémon que a fez soltar uma exclamação alta. Com o vento balançando sua juba e um olhar que demonstrava poder, Entei encarava a garota de forma curiosa, como se esperasse alguma reação de sua parte.

— Entei!

O Pokémon rugiu. Amy tremeu. Entei virou-se de costas e atravessou o grande lago do interior da montanha, chegando ao outro lado, onde havia diversas entradas para grandes túneis. Olhou para a garota, que hesitou. O Pokémon lendário a encarou profundamente e olhou para um dos túneis da montanha, prosseguindo por ele. Talvez, ele queria que Amy a seguisse.

A garota deu um passo para trás e, incrédula, pulou de volta nas costas de Pidgeot, que voou de volta até o outro lado da montanha, onde Amy recolheu sua Venonat, e dirigiu-se com velocidade para onde Entei havia seguido. Desembarcou das costas de sua Pokémon, a recolheu para a PokéBola e correu pelo caminho que estava a sua frente. Ela não sabia onde iria dar, mas ela tinha a sensação de que Entei não havia aparecido ali à toa, e nem havia feito contato à toa. Ela tinha certeza de que agora, as coisas estavam em outro rumo.

***

Rhyhorn encarava o horizonte no topo do Monte Mortar. Ao seu lado, Rocky, o Steelix, e Graveler, que em silêncio, acompanhavam o líder, perdido em pensamentos.

“Você acha que o mestre deixou de gostar de nós?”, questionou Graveler.

“Acredito que não. Ele deve ter outras coisas na cabeça. Pelo o que conheço, ele deve ter alguma razão importante para ter pedido para que não o seguíssemos”, respondeu.

“Isso aconteceu depois que eu entrei para a equipe... Eu devo trazer algum tipo de má sorte...”, lamentou-se Rocky.

“Isso não é culpa de ninguém, grandão. Vamos apenas esperar boas novas”, consolou Graveler.

O trio assustou-se com um repentino movimento por trás deles. Ao virarem, deram de cara com Sudowoodo e Shuckle caminhando até eles. Cansados, os Pokémon suspiraram aliviados ao ver os companheiros.

“Como é bom ver vocês...”, disse Sudowoodo, exausto.

“Notícias?”, questionou Rhyhorn.

“Sim. Sudowoodo disse que os amigos do mestre estão aqui”, avisou Shuckle.

Rhyhorn, Steelix e Graveler soltaram uma exclamação audível e se entreolharam.

“Então, não estamos sozinhos”, disse Graveler.

Heracross sobrevoou seus companheiros e pousou majestoso na frente deles. Com um olhar sério e expressão serena, não poupou palavras.

“Encontrei nosso mestre Forrest”.

Os Pokémon começaram a ficar agitados.

“E onde ele está?”, perguntou Shuckle, surpreso.

“Próximo daqui. E parece que ele está acompanhado”, respondeu Heracross.

“Será que dos amigos do mestre?”, perguntou Rocky.

“Eu não sei quem era, mas o vi conversando com alguém”, tornou a responder.

Rhyhorn encarou Heracross.

“Leve-nos até ele”, pediu, de forma séria.

O Pokémon acenou afirmativo com a cabeça e voltou a bater suas asas. Seus companheiros o seguiriam a pé.

***


Os Pokémon selvagens continuavam a agir de maneira estranha. Ethan continuava enfrentando as criaturas na busca pela saída do Monte Mortar. Suado, o garoto enfrentava há horas diversos Pokémon que atacavam violentamente, de surpresa, fazendo com que ele e sua equipe estivessem extremamente exaustos.

O garoto enfrentava vários Geodude e um Graveler utilizando Larvitar e Nidorino já tinha vários minutos. Seus músculos brigavam com o cansaço, suas pernas tremiam e sua visão ia ficando cada vez mais embaçada.

— Larvitar, Sandstorm! Nidorino, Water Pulse! — ordenou Ethan, rouco.

O corpo de Larvitar começou a ser envolvido por areia. Encarou os oponentes e, utilizando seus braços, controlou a tempestade de areia, fazendo com que ela engolisse Graveler e seus companheiros, que foram arremessados para todos os lados. Nidorino então criou uma grande esfera de água na ponta de seu chifre, e a arremessou na direção dos oponentes, que receberam o golpe super-efetivo.

Alguns dos Geodude caíram nocauteados, mas Graveler, com esforço, levantou-se do chão e olhou furioso para Ethan e seus Pokémon. Enrolou-se em seu grande corpo rochoso e partiu com velocidade na direção deles. Larvitar saltou na frente e abriu sua boca e liberando uma aura poderosa de cor púrpura, que transformou-se em grandes círculos negros poderosos, atingindo Graveler. O Dark Pulse poderoso, no entanto, não foi o bastante para parar o grandalhão, que continuou avançando com velocidade e atingiu Larvitar em cheio, sem, no entanto, causar grandes danos.

— Nidorino, Double Kick!

O Pokémon de Ethan correu veloz na direção de Graveler e atingiu-lhe com dois chutes poderosos no rosto. O oponente finalmente caiu ao chão, nocauteado.

Os demais Geodude que o acompanhavam ao verem seu líder completamente estático no chão, rolaram para longe, fugindo assim da batalha.

Ethan passou as costas da mão na testa, secando o suor. O garoto sentou-se ao chão e se permitiu suspirar e sentir seu corpo agradecer o descanso.

— Sei que vocês estão cansados... Eu só tenho a agradecer vocês pelo esforço... Você até aprendeu um golpe novo, Larvitar! Mal vejo a hora de sairmos daqui, eu acho que estou começando a desenvolver claustrofobia... — comentou o garoto, acariciando seus Pokémon, que arfavam de exaustão.

Ethan procurou em sua mochila algum frasco de Poção, Super Poção ou qualquer tipo de remédio que recuperasse a energia de seus Pokémon. No entanto, o garoto exclamou surpreso quando percebeu que havia apenas um frasco sobrando com o remédio, e que ele já estava no fim. Ele então olhou para Larvitar e Nidorino e tentou dividir o que restava entre os dois Pokémon.

— Sei que muito provavelmente não vai adiantar absolutamente nada, mas pelo menos vocês estarão melhores que eu — e sorriu.

Larvitar e Nidorino olharam para seu treinador preocupados. Sabiam que ele estava se esforçando além do limite e eles não podiam deixá-lo cair.

— Eu vou ficar bem. Vamos focar em sair dessa montanha, em procurar a Amy. Vocês estarem bem é o que importa.

Passos chamaram a atenção de Ethan. O garoto levantou-se com certa dificuldade e fechou os punhos. Ele recolheu Larvitar e  Nidorino e sacou outras duas PokéBolas. Ele não sabia o que iria enfrentar agora, mas ele não ia desistir fácil.

Suicune apareceu correndo na direção do garoto, que arregalou os olhos. O Pokémon lendário parou em sua frente e encarou o garoto de forma séria, como se pudesse ler sua mente. Não parecia que iria atacar, pelo contrário — estava esperando alguma reação de Ethan, que tremia da cabeça aos pés.

— O que você quer de mim? — perguntou o garoto.

Suicune passou pelo garoto e dirigiu-se até uma das cavernas próximas. Ethan o seguiu, mas o Pokémon era mais rápido. O garoto sentiu o cansaço o golpear certeiro, ele não tinha mais força e nem energia para continuar correndo. Uma dor aguda na lateral do corpo o fez frear, sua respiração oscilava e sua visão escurecia. Ele sentou-se no chão e respirou fundo, tentando não perder o controle de sua sanidade.

***

Amy subia um dos caminhos sinuosos que levava para o topo da cachoeira da caverna. A queda d’água majestosa parecia desafiar a garota jogando água em sua direção, querendo que ela escorregasse. Mas Amy era, literalmente, dura na queda, ela não seria derrubada tão fácil. Agilmente, segurava-se nas paredes e sempre que seu pé vacilava, equilibrava seu corpo novamente com ajuda dos braços, que agarravam as bordas das paredes e mantinha seu corpo no eixo. A garota subia agilmente pelas paredes traiçoeiras, e não demorou muito para que finalmente pudesse colocar seus pés no topo da cachoeira, onde tomou cuidado para não ser levada pela água. Amy saltou para uma das ilhotas de terra firme próximas e permitiu-se respirar aliviada.

Mas a garota não teve tempo de descansar. Em grande velocidade, um vulto percorreu a caverna e voou em direção ao topo da cachoeira, na direção de Amy. Charizard desviou da garota e pousou há alguns metros dela. Amy fechou os punhos ao perceber Red descendo das costas de seu Pokémon.

— O que você está fazendo aqui?! — perguntou a garota de forma ríspida.
— Eu ia te fazer a mesma pergunta, mas eu estou com pressa, e imagino que você também, visto que você já está aqui — disse o rapaz.
— Como assim?
— Vai dizer que não sabe da Equipe Rocket atacando em Mahogany?

A garota ergueu o cenho, incrédula.

— Qual parte de que eu sou uma ex-agente e que, com isso, eu estou por fora de todos os planos recentes da organização você não entendeu?! Eu to aqui procurando meu amigo! Se você já terminou com seu showzinho, me dá licença que eu to bastante ocupada — bradou Amy, irritada.

Red fechou o punho. Amy passou por ele e propositalmente o empurrou, tirando-o de seu caminho. O garoto massageou o ombro com uma das mãos e com a outra arrumou o boné.

— Me desculpe — disse ele.

Amy parou de caminhar abruptamente. Achou que havia se enganado.

— O que disse? — Ela virou-se em direção à Red.
— Me desculpe por ainda tratá-la como uma ladra. Estou custando a reconhecer que você mudou, mas isso já é culpa minha. No passado, nós tivemos nossas divergências, mas você está se esforçando para mostrar que não é mais aquela garotinha que eu enfrentei há três anos. Sinto muito de verdade por não acreditar na sua mudança.

Os olhos de Amy arregalaram-se. Sua boca abriu e ela por um instante não sabia como fechá-la. Seu coração pulsava tanto que era quase possível ouvi-lo ecoando pelo interior da montanha.

— Red, eu...
— Você precisa me contar melhor sobre o que está acontecendo pra eu poder ajudar. Em Ecruteak me contaram que você e seus amigos causaram a maior bagunça e fugiram pra cá. Você eu sei que causaria algo assim, mas os seus amigos? — Red recebeu um olhar zangado de Amy e logo caiu na risada — Ok, aquele papo de que você mudou. Eu ainda estou me acostumando com os fatos.

Acompanhada por Red, Amy prosseguiu a caminhada, contando todos os detalhes dos últimos dias — que pareciam semanas. A garota não sabia quantos dias haviam se passado desde que ela e Ethan, acompanhados de Eusine, entraram dentro do Monte Mortar, mas sentia que havia passado muito tempo ali dentro. Comentou que encontrou Suicune, que quase morrera afogada e que não havia sinal de Forrest. Mostrou o boné de Ethan e contou como haviam se separado. Red ouvia tudo em silêncio, sem tecer nenhum comentário, nem quando a garota parou de falar.

— Enquanto vocês se mantiveram perdidos aqui dentro, eu continuei investigando a Equipe Rocket. Após o ataque na Rádio de Goldenrod, eu fiquei me perguntando o motivo do interesse por radiocomunicação. A resposta me apareceu quando eu percebi que as pessoas e os Pokémon começaram a agir estranhamente nos arredores de Ecruteak. Lance também mencionou que os moradores de Mahogany têm se queixado de que os Pokémon que moram próximos ao lago ao norte da cidade têm agido de maneira estranha, atacando a todos que passam por ali, se escondendo em suas tocas.

Amy encarou Red de forma séria.

— O que quer dizer com isso?
— Eles, de alguma maneira, estão controlando Pokémon à distância por ondas de rádio.

A garota parou de caminhar. Red prosseguiu.

— Nós dois sabemos que o dinheiro é tudo o que importa pra Equipe Rocket. Depois que Giovanni morreu, eles começaram a agir nas sombras, de forma imperceptível, como ratos de esgoto. Nem a Elite 4 conseguiu pistas sobre o atual paradeiro dos agentes... Pelo menos eles sabem por onde você anda.

Amy arregalou os olhos.

— Quer dizer então que eu estou sendo monitorada?! Eu não acredito que além de me esconder de um grupo de mafiosos, vou ter que lidar com o governo pegando no meu pé também! — Gritou a garota, irritada.
— Amy, me escuta! Eu sei que você tem alguma coisa que a Equipe Rocket quer, e muito. Você precisa deixar eu te ajudar. — Red avançou até Amy, segurando-a pelo pulso.
— Me solta! — Exclamou ela, tentando se soltar.

De sua bolsa, um estampido alto. Um brilho invadiu o local. Red apertou ainda mais o pulso de Amy, sentiu um soco na boca do estômago e sentiu tudo girar ao redor. Sua visão escureceu e uma contínua freqüência aguda invadia seus ouvidos.

Então, tudo desapareceu.

***

Red abriu os olhos. Um cheiro de carvão invadiu suas narinas sem pedir permissão. O garoto tossiu e levantou-se, e sentiu a cabeça girando. Ele levou a mão aos olhos e os esfregou, tentando fazer sua visão embaçada voltar ao normal. Sentia calor. Ao recobrar os sentidos, percebeu que estava deitado na grama fofa, e que havia um Pokémon lhe observando, curioso. A criatura era rosa e lembrava uma salamandra, com olhos vazios que pareciam encará-lo sem de fato estar olhando para Red. Suas orelhas eram enroladas e tinha um sorriso estúpido em seu focinho arredondado. O garoto soltou uma exclamação e levantou-se. Procurou por Amy e logo a viu sentada ao pé de uma árvore, de olhos fechados e cenho franzido, como se estivesse dormindo profundamente e enfrentando um pesadelo. Red correu até ela e chamou por seu nome até obter um sinal de consciência de Amy, que acordou assustada, olhando arregalado para o garoto.

— Você está bem?
— Estou... Meio zonza, mas acho que não quebrei nada.

Red auxiliou a garota a levantar. Ao olharem para o lado, viram diversos Slowpoke caminhando. O lugar estava repleto desses Pokémon, vivendo soltos. Com certeza, eles estavam longe do vazio e imenso Mt. Mortar.

O quente sol de Outono não impedia que uma brisa gelada arrepiasse a pele de Red e Amy. O céu azul, sem nuvens, permitia uma maravilhosa visão de uma grande revoada de Pidgeys e Pidgeottos sendo liderados por um imenso Pidgeot, grupo que era acompanhado de longe de um bando de Spearow e Fearow. Caterpies, Butterfrees, Weedles e Beedrills caminhavam e voavam tranquilamente ao redor dos garotos e, no tronco das árvores, Kakunas e Metapods descansavam tranquilamente. O local era cercado por montanhas e árvores e o ar era tão puro que até os pulmões de Red estranhavam, o fazendo dar leves tossidas.

— Onde é que nós estamos? — Perguntou Red.
— Eu não faço idéia... Há poucos instantes, nós estávamos dentro do Mt. Mortar.
— E o pior é que não parece que estamos fora dele. Pelo menos, esse lugar não parece ser a Rota 42.

Os dois ouviram passos aproximando-se deles. Sacando PokéBolas, Red e Amy viraram-se em direção às visitas que chegavam.

Duas pessoas caminhavam a passos lentos na direção da dupla. Carregando pilhas de carvão vegetal, os dois rapazes estavam acompanhados de dois Pokémon, Scyther e Farfetch’d. Enquanto um auxiliava no carregamento do material, o outro, carregando um alho-poró no bico, marchava alegremente ao lado dos humanos. Amy pareceu sentir que conhecia aqueles dois Pokémon de algum lugar. E teve mais certeza ainda quando os dois rapazes pararam para conversar com eles.

— Olá, treinadores! Por favor, guardem as PokéBolas, nós não somos agressivos. — Sorriu um dos rapazes, de cabelos roxos, que vestia uma roupa verde de escoteiro e uma gravata amarela. Bugsy estava acompanhado de outro rapaz, mais velho, barbudo, de feição carrancuda e músculos definidos.

Uma gota de suor escorria pelo rosto de Red. Amy tentava pensar em alguma solução rápida para aquela situação inesperada.

— Muito prazer em conhecê-los, meu nome é Bugsy, líder do Ginásio da Cidade de Azalea. E este é meu amigo, Elton.

Red assustou-se ao finalmente perceber que ele não havia sido reconhecido. Uma luz acendeu-se na cabeça da garota.

— Meu nome é Amy. E o do meu amigo aqui, é Red. Nós somos da região de Kanto.

Bugsy soltou uma exclamação.

— Oh! É um prazer conhecê-los! Espero que aproveitem a estadia na cidade. Se precisarem de algo podem me encontrar no ginásio. Ou na carvoaria, que é onde eu costumo estar também. — Disse o simpático Líder de Ginásio, apontando para a grande construção a alguns metros deles.

— Combinado então! Muito obrigado pela atenção, senhor Bugsy! — Agradeceu Amy, com um sorriso forçado.
— Não precisa me chamar de senhor — sorriu ele, despedindo-se. — Até logo!

Quando ficaram sozinhos, os dois se encararam. Foi Red que quebrou o silêncio.

— Como assim eles não me reconheceram?
— Agora não é o momento para estrelismos. Precisamos descobrir o motivo de estarmos aqui.

A garota começou a caminhar, mas Red ficou observando-a.

— Amy, o que é que está acontecendo aqui?

Ela fechou os olhos, respirou fundo e tentou se acalmar. Mesmo que a presença de Red não fosse desejada por ela, seria pior se ele continuasse a não saber o que estava acontecendo ali.

Amy virou para o garoto e o observou de forma séria com seus grandes olhos azuis.

— Voltamos no tempo.

Red a encarou, incrédulo.

— E como isso é possível?

A garota respirou fundo mais uma vez.

— Quando você lutou contra o Giovanni três anos atrás, ele quase caiu em depressão. Ver a Equipe Rocket derrubada por um bando de garotos não foi algo bem aceito naturalmente por ele. O que eu sei é que, de alguma maneira, ele mandou buscar um Pokémon que o fizesse voltar no tempo e impedir sua queda. E esse Pokémon está dentro desta PokéBola, Celebi.

Amy tirou a PokéBola GS da bolsa e mostrou para Red, que continuava a encarar a menina sem entender nada.

— Então quer dizer que esse tempo todo ele dominou um Pokémon que pode viajar no tempo? Amy, isso é perigoso! — Exclamou ele.

Amy sorriu de forma cínica.

— Eu sei disso. Mas ele nunca conseguiu liberar Celebi de dentro dessa PokéBola.
— Não? Por quê?
— Ninguém sabe. Ela ficou muito tempo sendo pesquisada pelos cientistas da organização. Mas como era só questão de tempo até eles descobrirem como abri-la, resolvi levá-la comigo no dia em que eu fugi.

Red por um instante pareceu aliviado. Mas uma questão não deixou de passar por sua cabeça.

— Mas o que você pretende fazer com esse Pokémon que volta no tempo?

Pela primeira vez, Amy parou. Aquela pergunta a incomodou de um jeito como nenhuma outra havia feito até então. Ela precisou de alguns segundos para poder refletir.

— Sinceramente, eu não sei. Eu só não queria que o Giovanni fizesse outras coisas ruins.

Red arregalou os olhos, surpreso com a resposta. Realmente, Amy não era mais uma integrante Rocket. Seu comportamento dizia que, mesmo ela mantendo a pose séria de uma agente de alto-nível, seu coração não era, então, de pedra.

O garoto resolveu mudar o assunto.

— E então, como nós vamos abrir essa PokéBola pra pedir pra esse Pokémon levar a gente de volta?

Amy pareceu pensar por alguns segundos até ter a resposta definitiva.

— Eu não faço idéia.

***

Red e Amy caminhavam pela Cidade de Azalea tentando procurar alguma solução. Depois de muito insistir, o garoto conseguiu convencer a companheira de ceder a PokéBola GS para que ele tentasse invocar Celebi de dentro dela. Todas as tentativas, no entanto, falharam. Amy já estava perdendo a paciência, quando algo lhe chamou a atenção. Um homem alto que caminhava como uma sombra no meio das ruas da cidade. Ele vestia um sobretudo negro e uma chapéu que escondia seu rosto. Aquilo chamava a atenção de todos que cruzavam por ele. Amy e Red não pensaram duas vezes e, disfarçadamente, começaram a segui-lo de longe. Ele agia estranho, tentando se desvencilhar das pessoas, como se estivesse fugindo de algo ou alguém, tentando se esconder enquanto tentava não chamar a atenção de forma suspeita.

Os garotos o seguiram até uma área mais residencial da cidade. Ali, árvores de Apricorn se misturavam com as árvores da Floresta Ilex, e diversos Pokémon faziam moradia em suas copas. Red e Amy continuavam a seguir o misterioso homem, que parecia não notar a presença deles. Ele não parecia perdido, parecia se dirigir com convicção a uma das casas presentes naquela rua de diversos arvoredos, repleta de ramalhetes. A casa em específico era simples, feita de madeira, como as demais naquele local, com um telhado feito de palha e forragens. Aquilo era curioso, visto que por mais que as outras casas tivessem a mesma estrutura, aquela era a única da rua cujo telhado não fosse feito com telhas convencionais.

Amy e Red trataram de se esconder atrás do muro de uma das residências próximas quando viram que o homem misterioso aproximou-se da grande porta de madeira da casa em que se dirigia e deu três batidas. Após alguns instantes esperando, um homem velho, carrancudo, baixinho, calvo com cabelos prateados e nariz grande abriu a porta e soltou um raro sorriso ao ver o visitante. Amy exclamou ao reconhecê-lo como Kurt, o velho fabricante de PokéBolas.

— Oh! Senhor Pokémon! Que honra recebê-lo em minha residência! — Exclamou o velho Kurt tão alto que os garotos, escondidos, conseguiram ouvir.

O Senhor Pokémon ficou visivelmente sem graça. Conversou baixinho com Kurt, que logo cedeu espaço para ele entrar em sua residência.

Amy e Red tentaram chegar mais próximo da casa para ouvir a conversa em seu interior, mas um novo estampido da PokéBola GS surpreendeu os dois. Novamente, a tontura e a falta de ar tomaram conta da dupla, o chão sumiu e tudo ao redor desapareceu.
Quando abriu os olhos, Amy notou que estava a poucos metros de onde estava quando desmaiou. Procurou pro Red, que levantava-se do chão, e logo percebeu que não parecia que eles haviam viajado no tempo. Exceto por algumas Apricorns espalhadas pelo chão, tudo estava exatamente igual.

Foi Red que percebeu duas pessoas fazendo guarda próximo da casa de Kurt. Ao ser avisada, Amy reconheceu: Eram Mari e Leo, os dois agentes da Equipe Rocket que já foram seus subordinados.

— O que é que eles estão fazendo aqui?! — perguntou a garota.
— Eu não sei... Mas parece que não perceberam nossa presença... Vamos nos esconder.

A dupla seguiu para próximo das árvores e observaram. Enquanto Mari bisbilhotava pela janela, Leo permanecia de guarda, alerta para qualquer aproximação indesejada. Red tentava achar alguma brecha para que ele e Amy pudessem se aproximar da casa, mas foi a garota que bolou um plano. Convocou Blue, seu Gastly e fez Red surpreender-se com o pedido feito ao Pokémon fantasma que colocou um sorriso maligno e desapareceu perante os dois, voando invisível na direção do casal Rocket.

Mari, atenta ao que acontecia dentro da casa, começou a se sentir sufocada. A respiração ficou mais difícil de repente, o oxigênio fugiu de seus pulmões e sua garganta fechou. A jovem começou a transpirar de agonia e sua visão escureceu. Ela perdeu a consciência segundos depois.

Leo correu para socorrer a namorada. Não pensou duas vezes, pegou seu corpo nos braços e saiu correndo dali o mais rápido possível, abandonando a missão. Amy sorriu de forma travessa e Red a encarava incrédulo.

— E eu começando a achar que você era boazinha... Mandar Gastly sufocar aquela moça foi assustador... Foi inteligente, mas muito assustador.
— A gente tem que pensar rápido em situações como essa. Vamos logo com isso.

Os dois dirigiram-se até a casa de Kurt. Ao olharem pela janela, viram a PokéBola GS sobre a mesa, um Senhor Pokémon bastante eufórico e um Kurt que gesticulava muito. Amy e Red aproximaram os ouvidos das paredes para tentar ouvir a conversa.

— Essa PokéBola é bastante poderosa, uma das melhores que criei. Confesso que quando você chegou daquela vez com as penas de Lugia e Ho-Oh eu pensei que seria impossível! Mas você me conhece, sabe que eu adoro um desafio! — Kurt apertou o ombro de seu amigo, rindo alto.
— Muito obrigado, Kurt! Isso vai auxiliar muito em minhas pesquisas. Deixe só os outros pesquisadores ficarem sabendo que criamos a PokéBola mais poderosa de todas!
Kurt mudou a expressão.

— Cuidado com o que você fala. Muitas pessoas poderiam fazer loucuras para conseguir uma PokéBola assim... Lembre-se da Master Bola, na Silph Company há algumas semanas!

Senhor Pokémon mexeu-se incomodado na cadeira.

— É verdade... Acho que não devemos fazer alardes. Eu sinceramente não sei como não fomos descobertos ainda.

Red e Amy ouviram um som alto e forte aproximando-se das árvores. Os dois correram para tentar se esconder e não serem vistos. Os dois exclamaram alto quando viram diversos agentes Rockets surgindo e correndo em direção à porta de Kurt. A maior surpresa, no entanto, fora a presença do próprio Giovanni, em pessoa, acompanhado por Ariana, Archer, Proton e Petrel. Amy gelou. Red fechou o punho com força. Os dois viram os Rockets invadirem a casa de Kurt e, após alguns segundos tensos, saírem de lá com a PokéBola GS em mãos.

Red saiu em direção aos Rockets, mas a PokéBola GS que estava com eles soltou mais um estampido. Pela terceira vez, tudo desapareceu.

Os dois acordaram com uma enorme explosão. Assustados, os garotos correram rapidamente para o bosque próximo para se esconder atrás das árvores. Notaram um grande furdunço alguns metros a frente. Era Amy, cercada por capangas da Equipe Rocket. A garota, cansada, olhava furiosa ao redor, tentando pensar em alguma solução para sair dali.

Red tentou novamente partir para cima dos Rockets, sacando uma PokéBola, mas Amy o puxou pela manga da camiseta.

— Espera! Eu me lembro desse dia! — Exclamou a garota apontando para logo mais adiante.

Red olhou e surpreendeu-se ao ver Ethan e Forrest, que aproximavam-se correndo.

— Rhyhorn, vai! — Forrest lançou sua PokéBola.
— Quilava, Sandshrew, eu escolho vocês! — Disse Ethan imitando Forrest e jogando suas PokéBolas.
— Eu começo. Vou fazer esses idiotas tropeçarem. Rhyhorn, Earthquake!

Rhyhorn correu na frente e jogou seu peso no chão. Um terremoto começou a espalhar-se e os capangas da Equipe Rocket começaram a cair desequilibrados.

— Quilava, Ember! Sandshrew, Rapid Spin!

Quilava disparou brasas de fogo de sua boca e Sandshrew enrolou-se em torno do próprio corpo e saiu girando para a frente atingindo capangas da Equipe Rocket que se levantavam. As chamas de Quilava os faziam gritar de dor.

— Caterpie, String Shot! — Exclamou Ethan.

Caterpie lançou-se na frente do treinador e lançou um jato de fios de sua boca. Os capangas da Equipe Rocket que estavam no chão se contorcendo de dor por causa das queimaduras foram todos amarrados e presos na seda de Caterpie. Amy olhou para trás ao ver que não estava mais sendo seguida e encarou Ethan.

— Amy! — Ethan exclamou e correu até a garota.
— E... than... — Suspirou e desmaiou nos braços do garoto.
— Forrest! Temos que fazer alguma coisa agora! — Berrou para o amigo.
— Rhyhorn, venha aqui! — Gritou para o Pokémon.

O rinoceronte chegou correndo e parou ao lado de Ethan.

— Coloque-a no Rhyhorn. Vamos levá-la até o Centro Pokémon de Azalea.
— Tá. — Disse colocando a menina no lombo do grande Pokémon cinza.

Ethan e Forrest retornaram seus Pokémon e montaram em Rhyhorn que partiu correndo para onde Forrest apontava: A entrada da cidade de Azalea.

Amy e Red observavam Ethan e Forrest sumirem com Rhyhorn e a Amy do passado e logo notaram a chegada de mais pessoas. Era Silver, que incrédulo, viu seus capangas da Equipe Rocket feridos e amordaçados por fios de seda.

— O que está acontecendo aqui? Cadê a Amy? — Perguntou para um dos Rockets.
— Nós a estávamos perseguindo. Mas eu acho que demos de cara com amigos dela que nos pegaram desprevenidos... — Respondeu.
— Vocês têm Pokémon para quê? Idiotas! — Exclamou Silver nervoso.

O ruivo refletia sobre a informação que acabara de ter. Amy fora resgatada por... Amigos?

— “Amigos” você disse? Mas a Amy não tem amigos... Pra que lado eles foram? — Perguntou Silver novamente.
— Acho que eles estavam indo para Azalea... — Disse outro dos capangas.
— Azalea? Hum... Mudança de planos. Todos vocês, retornem para a base. — Disse o ruivo.

Todos os capangas, ainda amordaçados, começaram a se entreolhar.

— Idiotas... Croconaw, Scratch.


Croconaw usou as garras para cortar toda a seda que prendia os capangas Rockets. Assim que todos foram soltos, Silver deu um passo à frente e começou a falar.

— Voltem para a base. Esqueçam o que o Giovanni falou.

Os capangas começaram a olhar nervosos entre si.

— Mas Silver, é loucura desobedecer a uma ordem do Giovanni! — Exclamou um.
— Somos loucos, meu caro. Amy está indo para Azalea. Não se preocupem, Proton dominou a cidade. Estamos com agentes escondidos por todos os cantos. Logo, meu pai terá a Amy, que tornou-se a queridinha dele também. Nunca o vi tão fissurado por algo quanto agora... — Disse o ruivo aos agentes.
— Então Giovanni vai pegá-la em Azalea? — Perguntou outro Rocket.
— Sim. Por isso quero que vocês voltem para a base e avisem-no. O resto é comigo.
— Certo! — Disseram os capangas se retirando da rota.

Silver, com um sorriso sádico, retornou seu Pokémon e caminhou em silêncio para a entrada de Azalea. Amy olhou para Red, fez um sinal afirmativo com a cabeça e, espreitando-se pelo bosque, seguiu Silver com Red em seu encalço. O ruivo passou pela entrada da cidade e calmamente, andando com as mãos nos bolsos, prosseguiu pelas ruas sem notar que estava sendo seguido. Logo, chegou em frente ao Centro Pokémon da cidade e o encarou de cima a baixo.

Archer aproximou-se do ruivo.

— Podemos?
— Devemos.

Os Rockets liberaram seus Pokémon. Em um coordenado ataque em massa, atingiram a estrutura do hospital, fazendo as portas de vidro quebrarem e cacos voarem para todos os lados no interior do local. A energia do Centro Pokémon caiu, então Silver entrou calmamente. Os demais Rockets faziam a vigilância do lado de fora, impedindo a aproximação de qualquer pessoa que fosse. Red e Amy não tiveram escolha, se não esperar.

Minutos depois, barulhos e explosões do lado de dentro do Centro Pokémon eram audíveis do lado de fora. Forrest e a Enfermeira Joy já estavam fora do hospital e as sirenes das viaturas da Polícia anunciavam sua chegada. Ethan e Amy cruzaram correndo as portas quebradas do Centro Pokémon, sendo seguidos por Silver e Croconaw, que atacava tudo e todos em seu caminho. Seus poderosos Water Gun pifavam os motores das viaturas e chegou a nocautear o Quilava de Ethan.


— Quilava! — Exclamou o garoto.
— Pokémon do Tipo Fogo são fracos contra golpes do Tipo Água! — Disse Forrest.
— Vai, Caterpie! String Shot! — Disse Ethan lançando o Pokémon em batalha.

O verme fez sair fios de seda de sua boca, prendendo e imobilizando Croconaw.

Tackle!

Caterpie correu até Croconaw investindo-lhe no estômago. O golpe pareceu surtir efeito, mas Silver logo olhava para o Pokémon.

Bite! — Disse o ruivo.

Croconaw mordeu os fios de seda rompendo-os e logo em seguida, mordeu a cabeça de Caterpie.

— Caterpie! — Berrou Ethan.

Da boca de Croconaw, Caterpie começou a brilhar. Seu corpo estava mudando de forma e começava a ficar maior. Caterpie estava evoluindo.

Metapod, um Pokémon Casulo. É a forma evoluída de Caterpie.Dentro do casulo, é mole e fraco. Ele permanece imóvel nesse casulo. Ele se prepara para a evolução pelo endurecimento de seu casulo, fazendo assim uma defesa para seu corpo mole. — Registrou a PokéAgenda.
— “Endurecimento”? Heheh... Metapod, Harden! — Disse Ethan.

Metapod emitiu um forte brilho. Croconaw fazia um esforço visível, mas não conseguia partir a cabeça de Metapod. O esforço foi tanto que Croconaw acabou quebrando um dente.

— Sand, vai! Ajude o Metapod! — Disse Ethan lançando sua PokéBola.

Sandshrew saiu da PokéBola e mirou em Croconaw. Girou ao redor de si mesmo e um raio em forma de estrela saiu do corpo e dirigiu-se ao inimigo.

— Sandshrew aprendeu um golpe novo? — Perguntou Ethan.
— É o Swift! — Exclamou Forrest.

Croconaw caiu nocauteado. Metapod olhou para Ethan e caiu desmaiado também.

— Retorne, Metapod! — Disse Ethan retornando o novo Pokémon.

Amy e Red viram Proton pegar uma PokéBola e jogá-la para cima.

Poison Gas.

Uma fumaça tóxica começou a impregnar o local. Todos ali presentes começaram a tossir e desmaiar. Amy observou escondida seu eu do passado cair ao chão, desmaiada, sendo seguida por Forrest e Ethan, logo após retornar seu Pokémon. Pouco a pouco, todos os civis eram intoxicados e perdiam a consciência. A Equipe Rocket, rindo, recolhia os corpos inconscientes e levavam-nos para um poço-caverna próximo dali, o famoso Poço Slowpoke.

Amy e Red continuavam observando aquilo, atônitos.

— Acredite, estar ali é bem pior... — confessou a garota.

Os corpos foram removidos dali rapidamente, sendo amontoados dentro do poço. Silver e os administradores Rocket foram os primeiros a descer e, aos poucos, eram seguidos pelos demais capangas. Os minutos foram passando e Red continuava refém da adrenalina. Ele queria fazer alguma coisa, mas Amy sempre lembrava-o que aquilo era o passado, e que tudo havia se resolvido. Mas o sentimento de impotência o irritava, e essa irritação ia aumentando conforme o tempo ia passando, cada vez mais devagar. Do poço, ouvia-se vozes. E o murmúrio foi aumentando cada vez mais. Até que berros começaram a ser emitidos. Red não aguentou e levantou-se furioso, seguindo em direção ao poço e sacando uma PokéBola. Amy não conseguiu segurá-lo e foi atrás do colega.

— O que você ta fazendo? Eu falei pra você não se meter!
— Já chega, Amy! Eu não posso ficar vendo essas coisas acontecerem e não fazer nada! Mesmo no passado, a Equipe Rocket me enoja! E é covardia tudo isso o que eles fizeram! — O garoto liberou seus Pokémon. — Venusaur, Blastoise, Lapras, conto com vocês.

Um jato d’água surgiu da superfície e começou a alagar a caverna. Depois disso, pedras de gelo começaram a cair feito meteoros reduzindo bruscamente a temperatura do local.

— O que é isso? — Perguntou Ariana assustada.
— Devem ser ataques de Pokémon... — respondeu Silver.
Hydro Pump e Ice Shard. — Forrest disse de repente do chão. — Baseado na potência da água, ela pode ter origem de dois grandes canhões... Possivelmente, é um Blastoise que está fazendo isso.  Agora, já o Ice Shard, eu não posso dizer, já que muitos Pokémon aprendem esse ataque.
— Pode ser talvez de um Lapras. — Disse Amy que dissera alguma coisa após muito tempo calada.

Silver e os outros dois capangas da Equipe Rocket se entreolharam. Eles sabiam de quem aquele Blastoise e aquele Lapras pertenciam.

Da superfície, Amy viu que não teria outro jeito se não ajudar.

— Porcaria... Dewgong, Take Down!

A garota liberou seu Pokémon. Dewgong pulou em cima do poço, causando um grande abalo sísmico no interior do local.


Um terremoto começou no local. Ethan correu até Kurt e conseguiu solta-lo das cordas que o mantinham preso em uma parede. O chão ainda tremia violentamente.

— Kurt, você sabe onde fica a saída? — Perguntou Ethan.
— Sei, é por ali... — Disse o velho apontando para perto de onde a água e o gelo vinham cada vez mais fracos, cessando.
— Forrest, cuida da Amy, — Disse Ethan ao amigo que estava junto da garota.
— Pode deixar. — Disse Forrest.

Ethan mal deu dois passos e uma forte onda de sono surgiu do nada. Kurt pesou sobre seus ombros e ele viu Forrest e Amy se ajoelharem.

Sleep Powder! — Exclamou Ethan não aguentando mais e caindo já adormecido.

Do lado de cima, Red pedia para que seu Venusaur cessasse o golpe. Alguns membros da Equipe Rocket remanescentes tentavam sair do Poço Slowpoke, mas a saída estava começando a se deteriorar pelo golpe de Dewgong. Foi Croconaw que conseguiu arrombar o buraco e fazer com que os Rockets saíssem de lá.

Quando Silver alcançou a superfície, deu de cara com Red. A Equipe Rocket pareceu temer o olhar que ele dava. Até mesmo Ariana sentiu um calafrio na espinha ao olhar os olhos vermelhos do garoto. Silver encarou Red e, ao ouvir as sirenes dos reforços policiais, correu em direção ao bosque da cidade, desaparecendo junto com os comparsas.

Amy aproximou-se do garoto.

— Acho melhor a gente dar o fora daqui.

Mais um estampido alto e os corpos de Amy e Red desapareceram. Quando a polícia chegou, não havia mais ninguém do lado de fora do Poço Slowpoke. Os soldados agilizaram o resgate dos corpos adormecidos no interior do local, removendo-os e transferindo-os para o Centro Pokémon. Apesar de ter sua recepção parcialmente destruída, os equipamentos e quartos não foram danificados. A energia foi restaurada e o trabalho de reanimação das vitimas começou a ser feito.

Na escura caverna do Mt. Mortar, Red e Amy voltavam à consciência. Ao levantar-se, Amy deixou a PokéBola GS cair ao chão. O objeto rolou pelo piso irregular construído de pedras, parando ao lado do corpo de Ethan, desmaiado. Os dois correram para auxiliar o garoto, desidratado e fatigado.


TO BE CONTINUED...


Capítulo 43



Alguns dias se passaram desde o desaparecimento de Forrest. Ethan e Amy já haviam perdido a esperança de vê-lo retornar para o Centro Pokémon de Ecruteak, com a cabeça fria, com um pedido de desculpas e um sincero arrependimento do que havia feito. Ele não ia voltar, e isso agora era um fato.

Após a alta do hospital, os dois arrumaram suas coisas e decidiram seguir viagem. Apesar de ouvirem os pacientes e hóspedes do Centro Pokémon apontarem e falarem sobre eles, os garotos decidiram não responder e nem arranjar confusão. Eles só queriam sair de Ecruteak e seguir suas vidas, torcendo para que as pessoas esquecessem que eles existiam, ou que pelo menos algum outro evento abalasse a cidade e que virasse o novo motivo de conversa entre as pessoas.

A cada passo que davam rumo à Rota 42, Ethan e Amy olhavam para os lados tentando ver algum sinal de Forrest ou de seus Pokémon. Talvez eles pudessem estar escondidos por ali por perto. Mas a cada vez que eles não viam nada ou não tinham alguma resposta, a tristeza torturava mais. A caminhada foi longa e silenciosa. Nenhum dos dois puxava assunto. Não porque estavam bravos um com o outro, mas porque nenhum dos dois tinha coragem de falar sobre o amigo, mesmo que esse não fosse o único assunto, mas era mais confortável para todos que focassem na procura por ele. Até Amy, que era contra a ideia de irem procurar pelo paradeiro de Forrest, concordou com Ethan, mesmo com ela sabendo que o destino provável era Violet ou Goldenrod, onde há o Trem Magnético, que faz o trajeto entre Johto e Kanto, e por onde o garoto poderia facilmente regressar partindo de Ecruteak. Ela era esperta, mas talvez, pela primeira vez em sua vida, quis se deixar preencher pela ilusão de que eles iriam se encontrar logo.

Perdida em pensamentos, Amy nem percebeu quando Ethan chamou seu nome.

— Amy, por que a gente não dá uma parada aqui? Estamos caminhando há horas e eu estou morrendo de fome... — Disse o garoto, apertando a barriga, completamente exausto.

A garota, despertada de seu transe, olhou para os arredores, tentando localizar-se. Viu que eles estavam cercados por uma enorme cordilheira. Um belo lago cortava o caminho por dentre as montanhas e enormes árvores cresciam nas margens do sinuoso lago. A Rota 42 fora construída ali, naquele paraíso natural. Amy supôs que Mahogany ficava atrás das montanhas, visto que os cumes não pareciam ser tão altos. Assim, a garota chegou à conclusão de que eles estavam subindo a encosta das montanhas durante a caminhada que fizeram até aquele ponto da rota. No entanto, algo estava fora do comum. Nenhum Pokémon parecia estar ali. O silêncio predominava, fazendo com que Amy e Ethan andassem cautelosos a medida que se aproximavam da margem do lago.

A dupla colheu algumas frutas das árvores próximas, colocaram as mochilas na grama e sentaram-se ao pé de uma árvore, onde se refrescaram com a brisa e relaxaram durante algum tempo.

A paz deles, no entanto, foi interrompida quando do meio das árvores surgiu um Pokémon bastante conhecido deles, e que com certeza não fazia parte da flora local. Era Sudowoodo, que passou por Ethan e Amy correndo, sem olhar para trás.

— Sudowoodo?! — Exclamou o garoto, levantando-se apressado.

O Pokémon olhou para os humanos. Sua feição séria mudou para um sorriso surpreso. Mas, meio segundo depois, voltou a fechar a cara e a correr para além da Rota 42. Ethan e Amy pegaram suas coisas e saíram correndo atrás de Sudowoodo.

A corrida continuou por alguns minutos. Os garotos já começavam a ficar ofegantes, mas Sudowoodo, ágil, corria cada vez mais rápido. A surpresa maior foi quando um outro Pokémon pulou na frente de todos, fazendo Amy soltar uma exclamação e Ethan cair sentado no chão.

Sudowoodo continuou correndo. Poucos metros à frente, entrou em uma caverna na base de uma das montanhas.

— É o... Suicune! — Exclamou Amy, baixinho.

O cão lendário começou a rosnar para ela e Ethan. Avançando lentamente em sua direção, Suicune mantinha um olhar raivoso fixado nos garotos.

— Calma, Suicune... Somos seus amigos... Lembra? — Disse Ethan com a voz trêmula, que continuava sentado no chão, paralisado de medo. Amy por sua vez sacou uma de suas PokéBolas.

— Nos encontramos de novo, Suicune... — Uma voz conhecida chamou a atenção de todos.


O Pokémon encarou seu oponente e saiu em velocidade para onde Sudowoodo havia entrado.

— Volte Suicune! — Chamou Eusine, em vão.
— Você ainda vai atrás dele? Ele está muito irritado com alguma coisa, é capaz de ele atacar você! — Exclamou Ethan.
— Não se preocupe comigo, garoto! Eu persigo Suicune há quinze anos, eu sou bem grandinho já — Comentou o loiro sacando uma PokéBola. — Dentro do Monte Mortar ele não tem escapatória.
— Seria coincidência Suicune ter entrado na mesma caverna que Sudowoodo? — Perguntou Amy para Ethan, enquanto o auxiliava a levantar do chão.
— Eu não faço ideia, mas por via das dúvidas... É melhor seguirmos eles — Disse o garoto em resposta.
— Eu não posso permitir que vocês façam isso — Comentou Eusine, de forma séria.
— Como assim? — Perguntou Ethan.
— Perseguir Suicune. Eu não posso deixar vocês me atrapalharem. Infelizmente, vocês vão ter que ficar aqui.

Amy dirigiu-se para Eusine e apontou o indicador de forma ameaçadora para o rosto do viajante.

— Nós não queremos saber do Suicune. A gente quase foi atacado por ele. Nós somos dois, você é um só. Meça suas palavras, ou se não é você quem vai estar em apuros.

Eusine engoliu em seco.

— Nós estamos apenas seguindo o Sudowoodo que acreditamos ser de Forrest. Não tem nada a ver com o Suicune, ele é todo seu — Disse Ethan do chão, tentando amenizar a briga.

Arrumando a gravata, Eusine voltou a adquirir o tom arrogante na voz e na postura.

— Creio que não tenho escolha se não ajuda-los a perseguir seu Pokémon mequetrefe. Desta forma, vocês não me atrapalham com Suicune.

Amy fechou a cara e ameaçou socar o rosto de Eusine, mas Ethan conteve a amiga.

Os três então saíram correndo em direção à entrada da caverna do Monte Mortar. A caverna era imensa. Enormes estalactites eram refletidas na água do chão, cristalina. Tão transparente que era possível ver o limo das pedras no fundo da pequena lagoa. Pedras estas que faziam companhia umas as outras e que estavam ali já há milhares de anos, moldadas pelo tempo, pela natureza e talvez até por Pokémon que fizeram daquele lugar seu lar.

— Fiquem atentos a qualquer barulho que ouvirem... Existem muitos Pokémon poderosos que moram aqui dentro do Monte Mortar. Se por acaso o grupo se separar, foquem em chegar ao topo da montanha, é lá onde fica a saída — Disse Eusine.

Os passos ecoavam por todas as paredes. Os pares de pés daquele grupo batiam na água e, por mais que tentassem andar cautelosamente, o ruído que faziam involuntariamente era enorme. A caverna aos poucos ficava cada vez maior. Ao olharem para cima, não conseguiam mais ver o teto, apenas uma imensidão negra. O local ia ficando cada vez mais escuro, então Eusine sacou sua PokéBola e liberou Alakazam de sua PokéBola.

— Use o Flash, por favor — Pediu seu treinador.

O Pokémon humanoide, utilizando seus poderes psíquicos, fez as colheres que segurava emanarem um forte brilho, iluminando o local. A grande caverna foi mostrando seus detalhes, como as paredes rochosas que subiam pela parede que não tinha fim. Não parecia haver nenhuma forma de vida ali, nenhum Pokémon selvagem, o que era estranho, visto que se aquele era o lar de muitos Pokémon, onde estariam eles, afinal?

 Ao continuar caminhando, o grupo soltou uma exclamação quando, metros a frente, uma enorme cachoeira os saudou. E, em cima de uma das pedras perigosamente próximas a queda d’água, Suicune esperava pacientemente.

— Suicune! — Exclamou Eusine, correndo em direção à cachoeira, sendo seguido por Ethan e Amy.

O Pokémon lendário saltou majestoso do alto da cachoeira e pousou defronte ao trio, agora com água na cintura. Eusine sacou uma PokéBola.

— Finalmente você resolveu aparecer! E eu não posso deixar escapar. Não de novo. Mean Look!

Um Haunter saiu da PokéBola e olhou profundamente para Suicune. Uma aura vermelha cobriu seu corpo, deixando-o imóvel enquanto sentia os olhos negros do oponente possuírem seu corpo. Uma branca fumaça começou a envolve-lo, fazendo com que uma neblina gélida começasse a cobrir o local.

— É o Suicune que está produzindo isso? — Questionou Ethan.
Mean Look o paralisou... Talvez ele esteja usando o Mist pra tentar criar uma distração... — Palpitou Amy.
— Muito bem Haunter, use o Lick! — Ordenou Eusine.

O Pokémon fantasma avançou em direção ao paralisado Suicune e lambeu seu rosto. A agonia que o Pokémon lendário sentiu arrepiou todos os pelos do seu corpo. Suicune chacoalhou a cabeça e olhou para a enorme cachoeira.  Seu chifre brilhou e um raio multicolorido foi disparado de sua boca, atingindo Haunter, que caiu nocauteado com a força do golpe.

— Haunter! — Exclamou Eusine.

Suicune voltou a disparar o Aurora Beam, mas desta vez na direção da queda d’água, congelando-a instantaneamente, fazendo a temperatura da água cair imediatamente. O Pokémon correu sobre as águas e escalou a cachoeira congelada até seu topo, olhando para baixo e dando um poderoso rugido.

Eusine sacou outra PokéBola, liberando Electrode.

— Você não vai escapar! Thunder!
— EUSINE, NÃO! — Berrou Amy tentando impedir, mas era tarde demais.

O Pokémon de Eusine liberou uma poderosa corrente elétrica de seu corpo e disparou na direção de Suicune, atingindo-o. Entretanto, a eletricidade percorreu o gelo, atraída pela umidade da caverna e acabou eletrocutando os treinadores também, já que estavam dentro da água. O poderoso choque foi tão intenso que fez Ethan, Amy e Eusine desmaiarem.

Uma enorme rachadura começou a cortar o gelo da cachoeira. Despedaçando-se em milhares de pedaços, o enorme volume de água surgiu com velocidade e violência, quebrando o gelo do lago e arrastando tudo o que via a frente, incluindo Electrode, Eusine, Amy e Ethan.

No topo da cachoeira, Suicune percebeu os humanos sendo arrastados pela água. Correu em alta velocidade para tentar resgatá-los, mas a incrível força da água o impedia de pegar os três de uma vez. O Pokémon então pegou Eusine pela capa, o colocou em suas costas e subiu com ele pelas pedras de dentro da montanha, levando-o até uma das áreas altas da caverna, longe da correnteza.

O Pokémon lendário voltou a correr pela água fria procurando algum sinal das demais vítimas, porém nada encontrou. Ele então mergulhou na poderosa correnteza tentando localizar Ethan, Amy e Electrode debaixo d’água, mas eles haviam desaparecido.

Enquanto procurava, uma enorme dor de cabeça acometeu Suicune. Mais uma vez, desde que havia chegado àquela parte da região de Johto, algo estranho acontecia. Uma fúria incontrolável tomava conta de seu corpo. A dor de cabeça o fazia querer matar quem estivesse em sua frente. E por mais que tentasse controlar, aquilo era muito mais forte que ele. Ele sabia que aquilo não era normal. Ele sabia que devia ser obra dos humanos. E era dos humanos que ele precisava de ajuda.

Não... Ele precisava se livrar dos humanos.

Mas seu coração dizia que sozinho ele não conseguiria chegar a lugar algum. Não conseguiria resolver este enorme problema sozinho.

Mas nenhum Pokémon seria capaz de fazê-lo sentir assim... Com certeza os humanos teriam dedo nisso. Sempre os humanos! Ainda a pouco, um deles atacou o próprio Suicune! Aquilo era imperdoável!

O Pokémon lendário rugiu mais uma vez e saiu da água, correndo sem rumo por dentro dos labirintos daquela enorme montanha para tentar livrar-se dos pensamentos confusos.

***

Em algum ponto desconhecido da caverna, Sudowoodo corria apressado. Ele, prestativo que era, tinha a missão de procurar pistas sobre o paradeiro de seu mestre, Forrest. Seus companheiros de equipe mantinham-se atentos, rastreando o garoto pelo cheiro. Ele com certeza havia estado ali.

Pelos caminhos sinuosos no coração da montanha, o Pokémon mantinha-se concentrado para não se perder. Seu único azar, no entanto, era que diversos caminhos que ele teria que percorrer até chegar ao topo da montanha estavam alagados. Sua única saída era escalar as paredes para evitar tocar na água e tentar não olhar para baixo. O medo com certeza poderia fazê-lo cair e se afogar.

“Ai, às vezes eu queria ter asas... Heracross bem que podia ter vindo comigo.”, pensava ele enquanto tentava apoiar um de seus pés em uma das pedras perigosamente posicionadas na lisa parede.

Ao terminar de escalar a parede e chegar no topo de um dos abismos do interior do Mt. Mortar, Sudowoodo foi puxado pelos tentáculos de seu amigo Shuckle. Os dois Pokémon olharam ao redor para checar se estavam sozinhos e começaram a caminhar para o alto da montanha.

“Eu encontrei com os amigos do mestre. Eles estão aqui”, avisou Sudowoodo.

Shuckle soltou uma exclamação.

“Rhyhorn precisa saber! Vamos, os outros estão muito na nossa frente...”, comentou o parceiro, retirando de dentro de seu casco um pedaço da camiseta de Forrest.

“Ah, mestre... Onde está você?”, perguntava Sudowoodo, de forma melancólica, não obtendo resposta alguma.

***

Ethan tossiu. No primeiro sinal de consciência, seus pulmões expulsaram água, fazendo o garoto vomitar sem pestanejar. Ele sentia frio. E vomitou de novo. Sentiu suas narinas e seus ouvidos completamente entupidos de água. Estava escuro. Aquilo era um sonho? A barriga do garoto roncava de fome.  

O garoto levantou-se do chão. Passou a mão na cabeça, sentiu que estava sem o seu boné. Levou a outra mão para a alça da mochila, e viu que ela continuava fielmente presa ao seu corpo. Ethan suspirou aliviado, ainda tinha as PokéBolas consigo.

— Amy? — Chamou o garoto.

A única coisa que Ethan obteve como resposta fora sua própria voz ecoando pelas paredes.

Ele então abriu a mochila e foi liberando seus Pokémon, um por um: Quilava, Sandslash, Larvitar, Nidorino, Magnemite e Butterfree, que olharam ao redor, tentando se familiarizar com o local escuro.

— Quilava, você poderia por favor iluminar isso aqui? — Questionou Ethan ao Pokémon, que prontamente atendeu acionando as chamas de seu corpo.

Podendo dar uma boa olhada ao redor, o garoto notou que onde estava não parecia nem um pouco a mesma caverna com a cachoeira em que entrara a primeira vez. O chão estava úmido, mas não havia sinal nenhum de que ele estava perto da queda d’água da entrada da caverna. Ele então começou a ficar tenso.

— Galera, é o seguinte, a gente tá perdido. Eu nem me preocupo tanto com a gente, porque estamos bem. Mas não sabemos onde a Amy está, nem se ela está bem também. Vou precisar da ajuda de vocês para encontrá-la e pra sair daqui. Posso contar com vocês?

Os Pokémon de Ethan afirmaram com a cabeça.

— Nosso destino é o topo da montanha. É lá onde encontraremos a saída. Mas fiquem atentos a qualquer sinal de aproximação. Precisamos achar a Amy — Disse o garoto.

Ethan analisou novamente o local em que estava. Decidir qual caminho pegar não seria tarefa fácil, mesmo que ele pensasse em usar seus Pokémon para achar uma saída. O garoto pediu para que seus Pokémon tentassem localizar o barulho da cachoeira de onde estavam, mas nenhum deles tinha superaudição ou superolfato. Então, Ethan fechou os olhos, respirou fundo e seguiu em frente.

O silêncio predominava no interior da montanha. Ethan havia se esquecido de que estranhamente nenhum ser parecia habitar aquele local, o que era realmente muito estranho, devido à dimensão do tamanho do Monte Mortar. O som dos passos do grupo era a única companhia que tinham, fora, claro, as deles próprios. As orelhas dos Pokémon permaneciam eretas, em constante atenção, alertas a qualquer sinal de barulho estranho que pudesse estar a frente.

E foi justamente um barulho estranho que desviou a atenção de Ethan do caminho. Um grunhido baixo pegou a todos de surpresa. Eles pararam e tentaram localizar de onde vinha aquele som.

— Será que é um Pokémon...? — Questionou Ethan, num cochicho para seus Pokémon.

Os Pokémon de Ethan se entreolharam e, por via das dúvidas, ficaram preparados para atacar. O ruído foi ficando cada vez mais forte e alto. Uma sombra começou a aproximar-se deles, lentamente. A criatura era enorme. Tinha quatro braços bem musculosos cinza-azulados, sendo um par localizado na posição normal, e outro par diretamente acima dos ombros, com furiosos olhos vermelhos e lábios amarelos pálidos. O Pokémon fitava Ethan e seus Pokémon de forma ameaçadora.


O garoto deu um passo para trás e pegou sua PokéDex.

“Machamp, o Pokémon Superpoderoso. É a forma evoluída do Machoke. Ele rapidamente balança seus quatro braços para sacudir os adversários com socos ininterruptos de todos os ângulos e segurar os membros de seu inimigo para arremessar a vítima no horizonte” — Informou o dispositivo.

Ethan engoliu em seco. Machamp deu um soco poderoso na parede da caverna, reduzindo-a a pó, intimidando a todos.

— Machamp, nós somos amigos, não viemos incomodar você. Estamos apenas procurando uma saída daqui... — Disse Ethan com a voz tremida.

Machamp berrou e partiu pra cima do garoto. Larvitar saltou na frente de seu treinador e acabou sendo atingido em seu lugar, caindo violentamente no chão.

— Larvitar! — Exclamou Ethan.

Quilava ardeu em chamas e partiu para cima do oponente com seu Flame Wheel. Machamp, como um goleiro, agarrou o corpo do oponente com seus quatro braços poderosos e o jogou para o canto com força. Sandslash ao ver os companheiros caídos daquela maneira explodiu de raiva e foi o próximo a partir para cima do grandalhão lutador para feri-lo com o Crush Claw.  Mas Machamp o segurou pelos braços e também o arremessou para o lado. Ethan assistia a tudo incrédulo. Aquele Machamp não era um Pokémon comum, ele era treinado... Não seria fácil passar por ele.

O Pokémon continuava olhando para Ethan de uma forma ameaçadora. Machamp então acelerou o passo na direção do garoto, mas Butterfree voou para a frente de seu treinador e de seus olhos saiu um raio púrpuro que atingiu em cheio o rosto do grande Pokémon, que cambaleou para trás.

Tanto Machamp, quanto Ethan soltaram uma exclamação de surpresa.

—É isso, Butterfree! Pokémon Lutadores têm fraqueza contra o tipo Psíquico! — Exclamou o garoto.

Machamp levantou-se furioso, soltando um urro que ecoou pela caverna inteira, balançando as estruturas e fazendo o chão tremer sob os pés de Ethan.

— Butterfree, você está pronta? — Perguntou o garoto para seu Pokémon, que balançou afirmativamente a cabeça. — Ótimo, então vamos atacar com Confusion!

A borboleta disparou ondas invisíveis de seus olhos em Machamp, que urrou de dor, como se seu crânio estivesse sendo esmagada por uma prensa hidráulica. Sua ira ficava cada vez mais forte, e o que ele mais queria era matar aqueles seres que tanto o incomodavam.

O Pokémon se levantou e cegamente avançou para a frente, tentando acertar Butterfree de qualquer maneira. A borboleta, mais leve, desviava mais rápido. Ethan tentava retornar seus Pokémon, mas eles se recusavam a entrar na PokéBola. Não era do feitio deles abandonarem um desafio, e não seria essa a primeira vez. Mesmo desobedecendo uma ordem expressa de seu treinador, a quem juraram fidelidade, os Pokémon ainda assim tinham uma honra a cumprir, e proteger e ajudar seu treinador era uma das principais.

Machamp foi cercado pelos seis Pokémon. Mesmo que grande parte deles não tivesse vantagem alguma sobre o oponente, com exceção de Butterfree, todos ali estavam dispostos a ajudar a companheira a derrubar o grandalhão.

Ethan fechou os punhos.

— Muito bem, se o que vocês querem é lutar, eu não vou impedir. Vamos atacar! — Exclamou o garoto.

Um ataque em massa foi disparado. Machamp não conseguiu sequer se defender. Butterfree atacava com seus ataques psíquicos enquanto Sandslash e Larvitar combinavam seus golpes do tipo Terra. Quilava elevava a temperatura com seus ataques de fogo e Magnemite e Nidorino davam suporte com eletricidade e Water Pulse, respectivamente. A grande bola de energia combinada foi poderosa até mesmo para o grande e indomável Machamp, que caiu ao chão, nocauteado.

Ethan suspirou aliviado. Os Pokémon, mesmo que felizes, arfavam de cansaço. Aquela luta havia sido exaustiva, mas não haveria descanso. Eles teriam que subir a montanha e talvez Machamp fosse apenas um dos difíceis desafios que estavam por vir, e nenhum deles sabia qual ou quem seria o próximo oponente.

O corpo do Pokémon foi deixado estirado ao chão enquanto Ethan e seus Pokémon seguiam seu caminho para o desconhecido interior da montanha. Onde ficava a saída? Onde estava Amy? Eusine está vivo? Eram várias as perguntas sem respostas aparentes.


TO BE CONTINUED...



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