Capítulo 39



As ondas do mar desembocavam lentamente na praia. No entanto, as coisas pareciam levemente fora do comum na Cidade de Olivine. Lá embaixo, na costa, Ethan, Amy e Forrest davam seus primeiros passos dentro do território da Cidade. Após reservarem um quarto e guardarem suas coisas, o grupo desceu para a praia. [...]

Flaaffy parou por um instante e encarou o farol da cidade. Ela começou a sentir um aperto no coração. [...]

A tarde passou de forma tranquila na Cidade de Olivine. O grupo só retornou para o Centro Pokémon quando a lua já tomava seu lugar no céu.  [...]

Em seu quarto, o grupo começou a ouvir as gotas da chuva lá fora. Raios e trovões chegavam cada vez mais fortes, mas os garotos não pareciam estar preocupados. Eles tinham comida quentinha no refeitório e lençóis cheirosos no dormitório. Estava tudo bem, não era necessário sentir preocupação.

Após um bom banho, Amy vestiu sua camisola e dirigiu-se até a varanda do Centro Pokémon. A chuva de verão já havia cessado, mas a cidade ainda estava encharcada. Olhando para o horizonte, a garota percebeu que havia uma fraca luz que girava devagar. O Farol Cintilante não estava mais nos seus melhores dias. [...]

***

— Ethan, por favor, compareça à recepção. Ethan, por favor, compareça à recepção. — Soava a voz da Enfermeira Joy pelos alto-falantes do Centro Pokémon.

O garoto saiu correndo do refeitório segurando alguns pãezinhos. Com a boca cheia, alcançou em tempo recorde o balcão da enfermaria.

— Ethan, eu mesmo, presente! — Exclamou o garoto.
— Seus Pokémon estão totalmente recuperados. — Disse a Enfermeira sorridente, entregando uma bandeja com as seis PokéBolas do garoto.
— Obrigado! — Agradeceu Ethan com um sorriso sincero.

Amy e Forrest apareceram em seguida, espreguiçando-se.

— Essa pressa toda apenas pra lutar no Ginásio? Achei que você estivesse nervoso. — Comentou o moreno.
— Acordei bem disposto hoje. — Respondeu Ethan.

A Enfermeira Joy se dirigiu aos garotos.

— Vocês vão desafiar o Ginásio de Olivine? Porque ele não se encontra disponível no momento. — Disse a mulher.

Ethan encarou a enfermeira com uma expressão incrédula.

— Quê? Mas como assim?!
— O Pokémon da Líder que vive no Farol Cintilante está doente.

Os três se encararam.

— O farol do porto? Por isso que ele estava emitindo uma luz meio fraca ontem? — Perguntou Amy.
— Sim. Não só ontem, mas todos os dias desde que o Amphy ficou doente... E isso já tem um mês. Até mesmo a frota de navios do Porto de Olivine sofreu uma queda drástica, porque é perigoso chegar a noite com a luz de Amphy sendo emitida fracamente dessa maneira. — Explicou Joy.
— Mas você não conseguiu tratar o Amphy? — Questionou Forrest.
— Eu não consegui... Não tenho um tratamento super-efetivo para o câncer do Amphy... — Respondeu Joy em uma expressão triste.

Amy, Ethan e Forrest engoliram em seco.

— Câncer? — Aquela palavra arrebentou o coração de todos.
— Sim... A idade avançada do Amphy acabou diminuindo a imunidade do corpo dele e a doença atacou mais rápido. — Disse Joy.
— Bem, vamos até o Farol Cintilante. Se a Líder do Ginásio está lá, talvez nós possamos ajudar o Amphy de alguma maneira. [...] — Sugeriu Ethan.

Os outros dois pareceram concordar.

***

O farol era enorme. Tinha uns vinte metros de altura ou mais. Ethan, Amy e Forrest admiraram a arquitetura antes de adentrar o local. [...]

Amphy estava no último andar. Continuava deitado, com a respiração pesada. Ethan sacou a PokéAgenda.

“Ampharos, um Pokémon Luz. É a forma evoluída de Flaaffy. A ponta da cauda brilha e pode ser visto de longe. Ele atua como um farol para as pessoas perdidas. É considerado valioso desde a antiguidade por ser um pequeno farol.” — Informou a PokéAgenda.
— Forma evoluída do Flaaffy...? — Ethan guardou o dispositivo eletrônico e pegou sua PokéBola, liberando seu Pokémon.

Flaaffy encarou seu treinador com um sorriso e começou a percorrer aquele local estranho com o olhar.

Quando o Pokémon de Ethan encarou Amphy em seu estado terminal, um frio repentino tomou conta de seu estômago. O coração disparou. Sua respiração ficou mais pesada e profunda. Flaaffy estava estática.

Jasmine soltou uma exclamação.

— Oh! Você tem um Flaaffy! Que esplêndido! — Jasmine aproximou-se depressa da criatura.
— É uma menina. Faz um tempo que estamos juntos. — Disse Ethan, orgulhoso.
— Agora eu tenho duas coisas pra pedir pra você. — Jasmine olhou para Ethan com uma feição séria.
— Duas? — Perguntou Ethan com uma clara feição de dúvida.

Jasmine se levantou.

— A primeira é que preciso que vocês vão até a farmácia de Cianwood. Tem um remédio lá que foi feito sob medida para curar o Amphy... Eu não posso ir e deixar ele sozinho... — Disse a moça.

Ethan concordou.

[...] — A segunda coisa... É deixar sua Flaaffy aqui comigo. — Jasmine pareceu ter cuidado com as palavras.

Ethan a encarou com certa ironia.

— Tá doida, mulher? Por que eu deixaria meu Pokémon aqui com você? Eu mal te conheço!

Jasmine sorriu.

— Bem... Eu administro o farol e o Amphy está doente... Como Flaaffy pode fazer luz com a ponta de sua cauda assim como o Amphy, é perfeita pro trabalho. Vamos, garoto, por favor... Eu pago a estadia em Cianwood, o transporte, tudo... Só me deixe pegar Flaaffy emprestado. — Disse a garota quase implorando.

Ethan recuou um passo e fechou os punhos.

— Mas é o meu Pokémon...

Amy aproximou-se do rapaz, apertando seu ombro direito.

— Ethan, deixa a Flaaffy aqui. Eu sei que é difícil, mas... É por um bem maior. Vai ser algo rápido, só enquanto vamos buscar o remédio.

Forrest se aproximou.

— Ela tem razão, Ethan.

Ethan afrouxou os punhos.

— Cuide bem dela... — E deu um profundo suspiro.

Jasmine sorriu de orelha a orelha.

— Muito obrigada! Ela será bem cuidada! — Exclamou a Líder de Ginásio.

***

Com alguns telefonemas, Jasmine reservou três passagens de navio para os garotos. Eles embarcariam no S.S. Aqua, um navio de luxo que sairia do Porto de Olivine. Eles seguiriam de graça para Cianwood e voltariam para Olivine, tudo por conta. A despedida foi rápida, visto que Jasmine teve de voltar correndo para o Farol Cintilante para cuidar de Amphy e Flaaffy foi em seu encalço, olhando para trás de vez em quando para ver o navio com seu Mestre indo embora.

Assim que voltaram para o Farol Cintilante, Jasmine explicou para Flaaffy como aquela imensa construção funcionava. Cada canto, cada andar tinha uma história e um significado. Cada tijolo e degrau tinha uma função, uma razão de existir. A pequena Flaaffy começou a admirar aquele lugar. Não era mais em função de Ampharos. Ela se sentia conectada com aquele ambiente. Sentia que fazia parte, que aquele lugar pertencia a ela.

Quando voltaram ao topo da torre, Flaaffy voltou a encarar Amphy. O Pokémon continuava com a respiração pesada, mas dormia profundamente. Com receio de se aproximar, Flaaffy permaneceu estática no meio da sala enquanto Jasmine aproximava-se de seu Pokémon para aplicar uma das dezenas de dosagens dos remédios que Ampharos tinha que tomar. A jovem agachou-se em seu lugar de costume e acordou Amphy, lentamente. Jasmine estendeu uma das cápsulas de remédio para o Pokémon que virava o rosto. Era uma das horas mais difíceis do dia, pois ele não queria tomar seus remédios. Por mais que sua treinadora insistisse e implorasse, Ampharos se recusava com todas as forças. Ela só tinha sucesso quando ele desistia por exaustão.

Naquele dia, no entanto, Flaaffy não aguentou ver os dois sofrerem. Aproximou-se de Amphy com cuidado e acariciou sua cabeça. Ampharos a olhou e, por um segundo, sua respiração parou. Seu coração disparou. Ele não sabia quem era ela, mas desejou que não fosse imaginação.

Flaaffy lhe pediu. Amphy então olhou para Jasmine e se permitiu tomar aquelas cápsulas que o deixava com gosto ruim na boca. Mas não reclamou. Sua treinadora se surpreendeu.

— Ele nunca fez isso antes...! — Exclamou assustada.

Flaaffy sorriu para Amphy. Gentilmente, cobriu seu corpo com a manta amarela que ele tanto gostava e ele relaxou.

Jasmine sorriu.

— Acho que você foi a melhor coisa que já aconteceu em muito tempo. — E acariciou os pelos macios de lã da cabeça do Pokémon.

A jovem pegou um PokéGear do bolso do casaquinho branco e olhou as horas.

— Seis e meia...! Flaaffy, preciso lhe mostrar a iluminar o farol antes de anoitecer de vez!

Jasmine levantou apressada e se dirigiu para uma grande máquina que ficava atrás da cama de Amphy. Era imensa. Era um enorme cilindro de vidro cercado por computadores de última geração. Dentro, uma confortável cama cheia de almofadas de algodão com um espelho no teto.

— Flaaffy, você só tem que deitar aqui e acender a luz na ponta da sua cauda. O reflexo deste espelho irá fazer com que a luz se propague e se refreie, permitindo que ela brilhe no topo do farol. Fácil, não é? — Sorriu Jasmine. — Vamos tentar! Por favor, venha. Deite-se aqui.

Flaaffy, sem entender nada, apenas seguiu o que a garota havia lhe instruído. Deitou-se na confortável cama e acendeu sua luz. Jasmine deu alguns comandos ao computador e a máquina começou a funcionar. A parte de cima do cilindro de vidro começou a girar em sentido horário. A luz iluminava o espelho, passando por ele e atingia um teto de vidro dentro do grande cilindro, fazendo-a brilhar intensamente. Lá fora, os moradores de Olivine olharam encantados: Depois de muito tempo, o farol estava funcionando novamente.

E assim, os dias passaram-se. A rotina sempre se repetia: De manhã, Ampharos tomava seus remédios junto com a ração matinal. À tarde, ele se exercitava em esteiras, comia sua ração e, outra vez, tomava seus remédios. À noite, outra dose de remédio, ração de jantar e uma boa noite de sono. Tudo começou a ficar melhor quando Flaaffy começou a ajudar, pois Amphy passou a ficar mais motivado a fazer as coisas. A ligação entre os dois Pokémon a cada dia ficava mais forte. A cada minuto, os dois ficavam mais próximos e Jasmine sorria. Ela sabia o quanto era importante aquilo para Amphy e incentivava mais do que ninguém o relacionamento dos dois.

***

O apito do S.S. Aqua soava. A cidade de Olivine aproxima-se. O sol da tarde estava a pino e o céu limpo saudava novamente o navio.

Ethan mudou sua expressão.

— Olivine... Finalmente voltamos. Vou pegar a Flaaffy de volta e junto dela, minha sexta insígnia. — Disse o garoto sério.

Amy e Forrest se entreolharam. A garota dirigiu-se até a janela.

— Espero que com esse remédio, Amphy fique bem. — Suspirou preocupada.

Em vinte minutos, o navio atracou no porto. Após o desembarque, os três seguiram para o Centro Pokémon para procurar vagas em algum quarto e recuperar a energia de seus Pokémon. A euforia da primeira vez já não estava mais na cabeça dos garotos, a preocupação com Amphy era maior do que tudo. O trio fez o check-in, desceu as escadas, cruzaram a recepção e se dirigiram para a enfermaria. Ethan deixou seus Pokémon sob os cuidados de Chansey e Joy e, lentamente, dirigiu-se com os amigos à orla da praia da cidade. Estava quente. O céu azul convidava humanos e Pokémon a brincarem na areia branca e a nadarem na água fria e refrescante do mar. Aqueles três pareciam tão preocupados, e seu semblante sério parecia tão fora da realidade, que não foi muito difícil chamarem a atenção das pessoas por quem passavam. Logo, o farol se aproximava e tornava-se imponente na frente do trio.

Ana, a secretária de Jasmine, nem precisou partir para a burocracia. Assim que os garotos chegaram na recepção do farol, ela logo foi conduzindo-os para o elevador que os levaria até o encontro da Líder do Ginásio. Os segundos que se passaram na corrida do elevador para chegar até o topo da torre do farol, onde estava Amphy, pareceram uma eternidade. A ansiedade do trio estava estampada em suas faces e nas gotas de suor em suas mãos. Tensão. Pensamentos rápidos. Todos os sintomas de uma preocupação constante.

Um pouco do alívio só veio quando as portas do elevador se abriram e o grupo teve a visão panorâmica da praia de Olivine em sua frente, pela janela. 

Flaaffy, assim que viu Ethan passar pela porta, correu em direção ao garoto e pulou em seu colo. O Pokémon lambia seu rosto com intensidade, procurando sentir o cheiro e o gosto de seu treinador. Apesar do curto período de tempo, a forma com que eles tiveram que se separar foi rápida e dolorida para ambos, que mal tiveram chance de dizer "tchau". Mas aquele momento era como se às coisas passassem devagar. Como se o próprio planeta girasse mais devagar para que os dois pudessem se redimir como se nada mais pudesse atrapalhar aquele momento.

— Que saudade que eu tava de você! — Exclamou Ethan. — Você nem imagina a falta que me fez!

Jasmine aproximou-se dos dois com um sorriso. Seu semblante cansado, as olheiras profundas e até mesmo o cabelo meio desarrumado não deixaram ou impediram a jovem de esconder a felicidade de ver o trio.

— Que felicidade em ter vocês de volta! E parece que não sou a única a achar isso.
— Que bom te ver também, Jasmine! Como estão as coisas aí? — Perguntou Forrest.
— Tudo ótimo! Vocês nem imaginam o quanto a Flaaffy foi útil. 
— E o Amphy, como está? — Quis saber Amy com um leve tom de preocupação na voz.
— A evolução dele foi incrível! Ele está se esforçando mais, está tomando todos os remédios certinhos... Estou muito feliz com isso!

O trio sorriu aliviado. Ethan colocou Flaaffy no chão e pegou a mochila. Procurou dentro dela e encontrou o remédio trazido de Cianwood. Entregou para Jasmine e ela se apressou em dosa-lo para Amphy. O Pokémon ingeriu as pálidas cápsulas de medicamento, deu um cheiro de carinho em sua treinadora e deitou em sua cama acolchoada para descansar. Flaaffy aproximou-se e cobriu Amphy com a manta amarela e recebeu um olhar terno de carinho de resposta.

Ethan, Amy, Forrest e Jasmine deixaram o local e desceram para a recepção do Farol. Aliviados, o semblante dos quatro estava mais suavizado. Afinal, o remédio era a grande esperança de melhora de Ampharos.

— Muito obrigado pela viagem de vocês. Fico grata por todo o esforço em ir buscar o remédio para o Amphy... Eu não sei o que faria se vocês não tivessem aparecido. — Disse Jasmine, sorrindo.
— O prazer foi todo nosso. É um alivio saber que agora ele pode ficar melhor de vez. — Comentou Forrest.
— A gente ficou a viagem toda pensando em voltar logo pra Olivine e poder entregar esse remédio... Que bom que conseguimos. — Suspirou Amy, aliviada.
— A propósito, Ethan. Eu não me esqueci da nossa batalha de Ginásio. — Disse Jasmine sorrindo para o garoto.
— Ah, não se preocupe com isso. Enquanto estávamos em Cianwood, eu peguei a Insígnia local. Claro que mal vejo a hora de lutar contra você, mas eu acho que é melhor você se preocupar com o Amphy, né?
— Não se preocupe. Lutar contra você é o mínimo que eu posso fazer. Por favor, compareça ao Ginásio de Olivine amanhã pela manhã, tudo bem? Vamos realizar essa batalha e ver do que você é capaz.

Ethan hesitou por um segundo.

— Mas... Tudo bem mesmo?
— Tudo sim. Descanse e me procure amanhã. — Sorriu Jasmine.

O garoto sorriu de volta e, após alguns instantes, despediu-se da jovem e se retirou do local com Amy e Forrest.

Já começava a anoitecer quando o trio chegou ao Centro Pokémon. Ethan pegou seus Pokémon, recuperados, e subiu para a suíte onde ele passaria a noite com os amigos. As janelas do quarto estavam abertas e uma cortina de vento gélido entrou, fazendo-os ter um arrepio. Forrest aproximou-se e as fechou, e ali ficou um tempo, admirando a praia, que tinha de efeito a luz do Farol Cintilante brilhando forte, graças à Flaaffy. As horas foram passando e, aos poucos, Olivine foi ficando mais calma. Os moradores, humanos e Pokémon, aos poucos foram deitando em suas camas e dormiram. Na suíte, Amy e Forrest dormiam serenamente. Ethan, no entanto, não conseguia piscar o olho. Seja pelo nervosismo da batalha que teria dali a algumas horas, seja pela preocupação com Amphy, o fato era que a insônia do garoto o incomodava.

O garoto levantou da cama e, mesmo de pijamas — um shorts azul e uma camiseta branca furada embaixo da axila —, calçou seus tênis gastos, colocou suas PokéBolas no bolso e se retirou do quarto. Ele nem ao menos fez questão de pegar seu boné. Desceu a recepção, cumprimentou a Enfermeira Joy, e saiu pela porta automática. De frente ao Centro Pokémon, havia uma praça. O garoto se sentou sozinho e deixou a brisa litorânea tocar o seu rosto. Permitiu-se cair em pensamentos.

Vez em quando, Ethan olhava para o Farol Cintilante. A luz que guiava o porto da cidade brilhava intensamente. Aquecia seu coração saber que Flaaffy auxiliava Jasmine e Amphy tão bem e, ao mesmo tempo, a dúvida da permanência dela em sua equipe de Pokémon martelava sua cabeça. Do momento em que retornou, o garoto percebeu que Flaaffy fazia a diferença ali. E que mesmo que ela voltasse a fazer parte da equipe, com certeza o seu coração ficaria sempre em Olivine.

Essa era com certeza mais uma das dúvidas que pesavam toneladas dentro da cabeça do jovem.

A madrugada avançava noite adentro e o sono de Ethan não vinha. Foi quando uma presença feminina aproximou-se dele.

— Que surpresa te encontrar aqui essas horas. — A doce voz de Jasmine fez Ethan despertar de seus devaneios em um susto.
— Jasmine! O que faz por aqui?! — Perguntou ele surpreso.
— Eu geralmente venho esse horário atualizar a dose de medicamentos do Amphy com a Enfermeira Joy. Como o dia é bastante corrido, o único horário que eu tenho pra tratar disso é só agora, quatro da manhã.
— Você não dorme?! — Perguntou o garoto assustado.

Jasmine riu.

— Faz muito tempo que eu não sei o que é uma boa noite de sono. Desde que o Amphy ficou doente e seu estado de saúde se agravou, eu não paro mais pra dormir mais que duas, três horas. Eu preciso ficar sempre atenta pra cuidar dele.

Ethan engasgou.

— Desse jeito, quem vai ficar doente é você...
— Não se preocupe, eu estou bem. Eu vou ficar bem.

Ethan convidou Jasmine para sentar-se ao seu lado. A jovem agradeceu com um sorriso e ajeitou-se ao lado do garoto. Ficou algum tempo em silêncio, vendo as ondas do mar desembocarem na praia e enchendo os pulmões com o ar que soprava ali. O garoto olhava Jasmine em silêncio. Mesmo pela expressão exausta, mesmo pelas grandes olheiras, ela era muito bonita.

Ele respirou fundo e encarou o oceano.

Minutos em silêncio se passaram. Nenhum dos dois falava absolutamente nada, apenas encaravam a noite estrelada e a areia branca. A lua minguante era a única coisa que disputava a atenção dos dois junto ao farol. O brilho dela e a luz de Flaaffy tinham suas belezas únicas, mas entravam em um contraste indescritível.

Foi Jasmine quem quebrou o silêncio.

— Esse é o meu lugar favorito da cidade inteira. É aqui que eu venho meditar também. E eu fico olhando o céu, o mar, o farol e me perguntando o motivo do Amphy não poder mais sentir essa brisa, olhar essas estrelas. Ele não fez nada pra merecer essa droga de doença.

Ethan observava Jasmine atônito.

— Eu não acho que alguém mereça ficar doente... Acho que as coisas acontecem pra deixar a gente mais forte. E por mais que a gente nunca esteja preparado pra essas coisas, devemos lidar com essas adversidades. Assim a gente pode se tornar mais forte.

Lágrimas começaram a escorrer dos olhos de Jasmine. Ela começou a chorar copiosamente. Ela levou suas mãos ao rosto e Ethan paralisou. Ele não sabia o que fazer para consolá-la.

— Me desculpa... Eu só... não queria... que o meu... Amphy... morresse...

Ethan demorou alguns segundos para colocar uma das mãos no ombro da jovem. E o apertou. E a cada vez que seu coração pesava, ele colocava mais pressão no ombro de Jasmine. E ele não aguentou e colocou para fora, sob lágrimas, toda aquela angústia que guardara desde o primeiro momento em que soube que Amphy estava doente. E chorou também.

— Ele não vai morrer. É muito triste pensar nessa possibilidade... Não tem como, não!

O celular de Jasmine tocou. No identificador de chamadas, o nome de Ana.

— Pronto. — Atendeu Jasmine com a voz embargada.
— Jasmine, é o Amphy... — Disse a secretária em um tom de voz preocupado.

Ethan e Jasmine saíram em disparada em direção ao Farol Cintilante. Atravessaram a orla da praia da cidade com o vento frio cortando o suor do calor dos corpos da dupla que corria desenfreadamente para a imensa construção vertical. Sem fazer nenhum tipo de cerimônia, os dois entraram pelas portas da recepção e Ana, vestida com um robe azul por cima do pijama amarelo, já estava com o elevador preparado. Os três embarcaram e subiram para o último andar, onde ficavam os mecanismos do farol.

Ampharos ardia em febre. Sua respiração estava pesada. Tendo que manter o farol aceso, Flaaffy observava preocupada o estado de saúde de Amphy se agravar aos poucos.

Jasmine correu até Amphy para socorrê-lo. Pediu auxílio de Ethan e Ana, que ficaram atentos a todas as ordens que fossem receber. O garoto tremia da cabeça aos pés de nervosismo. A secretária suava frio.

A jovem abria os armários, pegava lenços, bacias e remédios e colocava tudo ao lado do Pokémon. Olhava para Ethan e Ana e pedia para que eles enchessem as bacias com água quente.

Enquanto Ana enchia a bacia, Ethan sacava a PokéBola de Quilava.

— Lava, preciso da sua ajuda, Por favor, aqueça a água dos baldes com suas chamas!

O Pokémon do garoto acendeu as chamas em seu dorso e posicionou-se ao lado dos baldes que Ana enchia. Enquanto Jasmine aplicava as doses de remédio, ela também encharcava com água morna panos de algodão e colocava na testa de Ampharos, na tentativa de fazer sua febre baixar. Mas Amphy tirava todos e se recusava a tomar os remédios.

Flaaffy parou de produzir luz e correu até o lado de Ampharos para fazê-lo mudar de ideia. Ela discutia com ele que balançava a cabeça negativamente. O ambiente estava muito tenso. Ethan e Ana assistiam atônitos aquela cena lamentável.

“Você não pode fazer isso comigo!”, bradava Flaaffy. “Eu preciso. Estou cansado... Eu preciso ir...”, respondia Amphy.
“Eu não vou saber viver sem você! Eu te amo!”
Palavras que confortaram o fraco coração de Amphy.

“Eu também amo você. Cuide de minha mestra. Ela é uma excelente treinadora. E você é uma linda e maravilhosa Pokémon.”
“Eu não aceito! Você não pode! Não pode!”. As lágrimas escorriam pelo rosto de Flaaffy.
“Eu preciso, minha querida... Eu vejo uma luz tão forte quanto a do Farol Cintilante, a quem eu dediquei minha vida e minha energia... E ela não pode existir sem mim... Assim como o Farol não existe sem você...”.

Uma lágrima escorreu dos olhos de Amphy. Jasmine se afogava em lágrimas. Ethan e Ana não conseguiram segurar o choro também. Era doído ver aquilo acontecer na frente deles e nada poder ser feito a respeito.

— Por favor, Amphy... Eu preciso... de você... — Soluçava Jasmine em prantos.

Ampharos lambeu o rosto da treinadora como um beijo de adeus. E aquilo partiu o coração dela. Amphy então acendeu a luz de sua cauda pela última vez. E foi um brilho vermelho que cegou a todos por um breve instante. Quando a luz cessou, Amphy já não respirava mais.

Jasmine apoiou-se com os punhos no chão e chorou. Botou pra fora toda a dor que sentia naquele momento. Ela não podia aceitar o fato de que seu companheiro partiu assim, sem deixar ela se preparar.

Flaaffy aproximou-se do corpo de Amphy. Começou a chacoalha-lo devagar, como se quisesse fazê-lo acordar de um cochilo. Ela queria acreditar que ele apenas havia dormido, mas iria acordar com o sorriso de todo dia. Era inaceitável que ele tivesse partido sem se despedir devidamente. E todos os planos que ela havia feito para realizar com ele? Era injusto! E ela o agitava cada vez mais forte. Mas ele não se movia mais.

Ela gritou. Botou pra fora em forma de um grito estridente o peso de seu coração. As lágrimas transformaram-se em um brilho forte. Seu corpo começou a crescer e a se modificar. Ela se tornou maior.

Flaaffy havia evoluído para Ampharos. Ainda que tal feito tenha causado uma enorme surpresa em todos ali presentes, a única coisa que se conseguiu ver antes dos primeiros raios de Sol saírem no horizonte fora Ampharos ajoelhar-se ao lado de Jasmine e chorar com ela a perda de um Pokémon querido, que levou consigo metade do coração das duas.

...

Amy despertou com a porta do quarto sendo aberta. E assustou-se ao ver que era Ethan, de pijamas, entrando na suíte. A menina coçou os olhos e, espreguiçando-se, olhou para o amigo e estranhou a sua expressão cansada, com olheiras marcando seus olhos inchados e vermelhos.

— Onde você estava? Aconteceu alguma coisa...?

Ethan caiu de joelhos no chão do quarto e chorou. Chorou a perda de um Pokémon que ele não conhecia, mas que se sentia tão ligado. Chorou por não ter feito nada para fazê-lo melhorar. Chorou porque sabia que nunca mais ele iria se perdoar por ter deixado Amphy morrer.

***

No pé do Farol Cintilante, Ethan, Amy, Forrest, Jasmine, Ana, Ampharos e muitos cidadãos da Cidade de Olivine olhavam para o caixão branco onde jazia o corpo de Amphy. Um silêncio absoluto tomava conta do ambiente. Parecia até mesmo que o mar, em sinal de respeito, chorava com o barulho de suas águas que tocava a areia da praia e levava para longe toda a dor que prevalecia ali. Uma flor havia sido colocada sobre a tampa do caixão. Jasmim, a flor favorita de Amphy. Como o nome da Mestra escudeira e que cuidou dele até o fim de sua vida.

Era por volta do meio-dia quando o caixão desceu para o buraco cavado embaixo do Farol. Amphy foi enterrado onde havia passado sua vida: Na praia, ao lado do lugar em que amava estar, o Farol, onde guiava as vidas que vinham e que passavam, que coletaram e que trouxeram memórias que influenciaram, de uma forma ou de outra, todos os ventos litorâneos da cidade. Ele estava feliz.

Ethan tocou no ombro dos amigos.

— Vamos pessoal. Nossa estadia em Olivine se encerra por aqui.

Amy e Forrest se entreolharam. Jasmine, que estava próxima ao jazigo onde Amphy havia acabado de ser enterrado se virou e viu Ethan começando a se afastar da orla da praia. O garoto se dirigia para o Centro Pokémon.

Não há palavras que confortem um coração quando o luto paira sobre ele. Por mais que todos nós procuremos a fórmula da eternidade, pessoas queridas acabarão, cedo ou tarde, nos deixando em vida. A despedida sempre é um “até logo”.



TO BE CONTINUED...



Capítulo 38


Amy recolheu Gyarados à PokéBola e aproximou-se do amigo.

— E quem diria que você conseguiria me derrotar algum dia... Espero que você não decepcione e vença a final. Afinal, eu fiquei realmente afim daquele Lapras.

Ethan a olhou confuso.

— Ué... Mas se eu vencer, não é justo que eu fique com o prêmio?

A garota sorriu maliciosa.

— É justo que você fique com algo mais valioso do que um mero Pokémon. — E deu uma mordiscada na orelha do menino, fazendo-o arrepiar por inteiro.

Forrest aproximou-se da dupla.

— Você anda melhorando, Ethan. E eu fiquei realmente surpreso com aquele Water Pulse. Onde você o conseguiu?
— Digamos que... Foi uma coincidência. — Respondeu o garoto, ficando sem graça.

Amy o encarou.

— Seeeei... — Ela franziu o cenho. — Essa história tá mal contada. Mas é melhor você se preparar pra batalha final.

Ethan suspirou aliviado.

— E contra quem é?
— Eu. — Soou uma voz conhecida.

Ao se virar, todos deram de cara com Joey e um sorriso convencido no rosto.

— Você?! — Exclamou o menino.
— Não sei por que você está assustado. Até parece que não sabia que eu chegaria à final. — Sorriu Joey.

Ethan pareceu tenso. Da última vez que havia batalhado sem interferências contra Joey, ele havia perdido. Seria medo esse sentimento que estava parecendo consumir seus órgãos internos?

— Eu vou vencer você, Joe. Guarde o que eu estou falando.
— Veremos. Depois do almoço, claro, porque eu estou faminto. — Disse o garoto, acariciando a barriga que reclamava alto.

A voz de Bob ecoou pelos ouvidos de todos.

— Senhoras e senhores! Estamos com as finais definidas: O participante Ethan contra o participante Joey! Em duas horas, após o almoço, Lapras terá um treinador! Mantenham-se atentos!

Ethan e Joey olharam um para o outro e sorriram.

— Quem chegar por último no refeitório é mulher do padre! — Exclamou Joey, saindo em disparada em direção aos corredores do navio.
— Ei, isso não é justo! Você nem avisou que ia fazer isso! — Ethan acelerou e começou a perseguir seu rival.

Amy e Forrest se entreolharam e deram um sorriso sem graça.

Um homem com cabelos arrepiados num tom de carmim, uma roupa azulada com linhas laranja passando por ela e cruzando seu corpo ia em direção a dupla que permanecia parada próxima ao campo de batalha. Sua capa negra se arrastava no chão e dava ao homem um ar selvagem. A feição séria que tinha em seu rosto o fazia uma pessoa respeitada, e isso podia se ver na expressão de admiração e surpresa nas faces dos passageiros que se encontravam ali. Os buchichos e cochichos incrédulos diziam repetidamente o seu nome, mas Amy e Forrest permaneciam tão imersos em seu “mundo real” que nem perceberam quando a voz grave, porém suave, do rapaz chamava por sua atenção.

— Mocinha, com licença.

Amy e Forrest viraram-se e entraram em estado de choque. Em sua frente, estava uma figura conhecida e muito falada tanto no mundo da máfia de Amy quanto nos campos de batalha de Ginásio de Forrest. Ali, parado defronte a eles, estava o grande líder da Liga Pokémon, o mestre dos Dragões, o imbatível Lance.

— Você não gostaria de entrar para a Elite 4? Estou procurando por novos membros e você é perfeita para o cargo que tenho em mente. — Disse Lance, gentilmente repousando seus olhos castanhos em Amy, que pela primeira vez em sua vida, não tinha o que responder.

Forrest engasgou e as pessoas ao redor apontavam tímidas para eles.

— E-Elite 4? E-Eu? — Gaguejou a moça dando um passo para trás, incrédula, sentindo-se estranhamente encantada por aquele sorriso irritantemente simpático.

A respiração de todos os presentes pareceu oscilar por um instante. Não era algo que se via todos os dias: O campeão da Elite convocando um treinador comum no meio de tantas pessoas era algo inacreditável.

Lance aguardava pacientemente a resposta de Amy que permanecia em choque. Nenhuma palavra saia de sua boca. Sua respiração estava ofegante e seu coração palpitava numa velocidade acima do normal. Ela sabia que Lance era um treinador poderosíssimo. Mais até que Red — visto que Lance derrotou Red e pegou de volta o posto de campeão da Elite 4. E, diferente de Red, ela não sabia se Lance se renderia ao seu charme. Era melhor não arriscar e ficar longe, porque ela também não tinha ideia se Lance sabia de sua antiga ligação com a Equipe Rocket.

— Eu agradeço o convite, senhor Lance... Mas não posso aceitar.

A surpresa foi audível na exclamação soltada por todos os passageiros que presenciavam aquela cena. Forrest, timidamente, aproximou-se do ouvido da amiga, apreensivo.

— Amy... Você tem certeza? A Elite 4 é a oportunidade de uma vida! Nem em sonho eu acho que conseguiria fazer parte dela... — Cochichou o moreno.
— Eu tenho certeza da minha escolha. Desculpa, senhor Lance, mas essa é a minha decisão final. — Disse a garota.

Lance deu de ombros.

— Muito bem então. Eis aqui o meu cartão. Ligue-me se mudar de ideia. — O campeão dos dragões estendeu um cartão de visita preto com o logotipo da Liga Pokémon, virando-se em seguida para seguir em direção à sua cabine luxuosa no navio.

Amy e Forrest se entreolharam. Foi quando a garota não aguentou a curiosidade.

— Por que você me quer na Elite 4?

Lance parou imediatamente. Com aquele sorriso irritantemente simpático, virou-se para Amy.

— Você é talentosa. Eu vi o jeito como você lidou com seu Gyarados. Claro que eu posso aumentar ainda mais o seu poder como treinadora... Mas não cabe a mim escolher por você.
— Mas por que o senhor está formando uma nova Elite? — Questionou Forrest.
— Creio que a Liga Pokémon precise de treinadores jovens que levem a sério o trabalho. A Elite 4 de Kanto e Johto se tornaram independentes e, depois de Red e Gary, que foram treinadores prodígios mas que não aguentaram a responsabilidade, quero renovar a Liga, abrir novas portas. Os meus antigos companheiros têm planos diferentes dos meus e achamos por bem dividir o governo. Estou juntando novos. Eu já vi tudo o que tinha que ver por aqui. Até mais, jovens treinadores.

Lance arrumou sua capa majestosa e se retirou dali. Ninguém fez menção de segui-lo para conseguir autógrafos ou fotos. O público ainda estava em choque. Amy e Forrest também.

***

Ethan e Joey acariciavam a barriga estufada. Eles competiram até mesmo pra definir quem terminava de comer a maior quantidade de comida em menos tempo. Nem deram muita atenção quando o pessoal que vinha da proa do navio chegava atrasado no restaurante e, entre eles, Amy e Forrest vinham conversando baixinho, aproximando-se da mesa onde os garotos estavam sentados.

— Por que é que vocês estão com essa cara surpresa? Parece até que viram um Pokémon lendário. — Disse Ethan saudando os amigos.
— Foi quase isso... — Suspirou Forrest.
— Lance está no navio. Veio até mim perguntar se eu não queria me juntar à Elite 4. — Resumiu Amy.

Os olhos de Ethan e Joey quase saltaram para fora das órbitas.

— COMO ASSIM?! — Berrou Ethan.
— VOCÊ ACEITOU, NÃO É?! – Questionou Joey no mesmo tom de voz.
— Calem a boca! Falem baixo! — Brigou Amy, constrangida, tentando fazer com que os amigos chamassem menos atenção. — É óbvio que eu não ia aceitar!

Ethan parecia indignado.

— Mas como assim, mulher?! Você sabe o quanto é difícil derrotar a Liga Pokémon! Imagina entrar pra Elite!
— Vocês três sabem que eu não posso ficar sozinha! Minha cabeça está em jogo. E imaginem quatro dos maiores treinadores da região estarem comigo 24 horas por dia, isso mancharia a reputação da Elite. Eles me entregariam pros Rockets.
— Ou você teria quatro dos maiores treinadores da região de segurança. O que é uma organização criminosa perto da Elite 4? — Falou Joey distraído.
— Oito ou oitenta. — Finalizou Forrest.

Agora a mente de Amy trabalhava a mil por hora. Era realmente uma questão de extremos. Ao menos Lance havia deixado o contato dele com a menina, nem tudo estava perdido.

Após a pausa do almoço, finalmente a grande batalha final havia chegado. Ethan ergueu-se da mesa e espreguiçou-se. Joey levantou-se vagarosamente.

— Acho que tá na hora do show. — Disse o garoto para Ethan.
— Vamo nessa. Boa sorte, parceiro. Que vença o melhor. — Sorriu Ethan.

***

Na proa do navio, uma muvuca. Os curiosos aproximavam-se para presenciar aquela batalha. Não era sempre que aquele tipo de evento acontecia e ninguém sabia quando ia acontecer de novo.

Ethan e Joey se encararam e sorrindo. Bob autorizou a partida erguendo o braço esquerdo para o alto.

— Wooper, eu escolho você! — Ethan arremessou a PokéBola no piso do navio.

O pequenino saiu sorridente, animado para batalhar.

— Lembra desse, Joey? — Questionou o menino. Joey fez que sim com a cabeça.

***

Uma bela cachoeira recebeu os garotos que se surpreenderam ao ver um número grande de Wooper selvagens que habitava ali. Eles pareciam reverenciar um Pokémon maior que estava sentado em uma espécie de trono feito com objetos brilhantes. Ethan exclamou alto quando viu suas duas insígnias na coroa de Quagsire.

— Que Pokémon é aquele? — Questionou Ethan enquanto sacava a PokéAgenda.
“Quagsire, um Pokémon Peixe Aquático. É a forma evoluída de Wooper. Este despreocupado Pokémon tem uma natureza fácil de lidar. Devido à sua atitude relaxada e despreocupada, muitas vezes esbarra a cabeça em pedregulhos e cascos de barcos enquanto nada.” — Informou o dispositivo.
— Siiiiiiiire! — Quagsire gritou de repente e apontou para os humanos. O enorme grupo de Wooper colocou-se na frente de seu rei, pronto para atacar.

Ethan deu um passo à frente e apontou para Quagsire.

— Essas duas coisas aí na sua coroa idiota são minhas insígnias! Eu dei um duro danado pra conseguir elas e não vou aceitar que nenhum Pokémon idiota roube elas de mim!

Quagsire voltou a gritar e os Wooper soltaram um jato d’água de suas bocas minúsculas. O poderoso ataque em grupo derrubou a todos no chão. Ethan se irritou a ver todos os Pokémon rindo dele.

— Vocês. São. Ridículos! Pessoal, vamos acabar com esses pequenos demônios! — Exclamou Ethan nervoso.
— Ethan, eu não posso ajudar! Meus Pokémon são do tipo Pedra, eu estou muito em desvantagem! — Disse Forrest.
— Eu topo... Primeape, vai! — Amy arremessou sua PokéBola.
— Certo, Rattata! Tá na hora de mostrar quem é que manda! — Joey liberou seu Pokémon que pousou no chão com vigor.
— Butterfree, vamos nessa! — Ethan exclamou ao Pokémon. — Sleep Powder!
— Rattata, Hyper Fang! — Ordenou Joey.
— Primeape, Scratch! — Disse Amy ao seu Pokémon.

Butterfree fez um voo rasante despejando um pó verde sobre os Pokémon que caíram adormecidos. Rattata e Primeape miraram em Quagsire que lutava para resistir ao sono.

Sucker Punch! — Exclamou Joey.

Rattata correu em direção a Quagsire e com uma de suas patas, desferiu um soco direto em seu rosto, fazendo sua coroa cair.

— PokéBola, vai! — Joey arremessou uma esfera.

A PokéBola atingiu a testa de Quagsire que foi sugado para dentro. A capsula caiu no chão e começou a se balançar violentamente. A abrupta parada anunciou o sucesso da captura.

— Pronto! Peguei o Quagsire! — Comemorou Joey.
— Caramba! Você pegou o líder deles! — Exclamou Ethan impressionado.
— Eu sou o melhor. Quero o melhor. — Gabou-se o rapaz.

Todos os Wooper estavam dormindo. Quando todos olharam para a saída, havia um Wooper encarando-os.

— Esse não é aquele Wooper que estava lá na margem? — Perguntou Amy.
— Certo... Agora é a minha vez! Butterfree, Confusion!

As pupilas de Butterfree desapareceram e um brilho ofuscante tomou lugar. Wooper começou a se contorcer e ficou tonto. Estava confuso. No entanto, conseguiu lançar um jato de água da boca, atingindo Butterfree. Era o Water Gun.

Sleep Powder!

Butterfree começou bater as asas e delas, um púrpuro pó verde começou a sair. Wooper caiu adormecido.

— PokéBola, vai! — Disse Ethan arremessando o objeto.

A capsula abriu ao encostar no dorminhoco Wooper. Sugando-o para dentro, o objeto começou a balançar diversas vezes até fazer um barulho alto. A captura tinha sido um sucesso.

— Mais um Pokémon! Wooper, eu te peguei! — Comemorou Ethan.
— Você está feliz por capturar um simples Wooper? Bem sua cara mesmo. — Zombou Joey.
— Eu ainda posso chutar sua bunda com esse Pokémon. — Retrucou Ethan.

***

Joey deu uma gargalhada.

— Que tal revivermos os velhos tempos? Vai, Quagsire!

O grande anfíbio azul vagarosamente encarou seu oponente. Por uma fração de segundos, os dois Pokémon relembraram seus momentos de súdito e majestade e, após um longo tempo, encontraram-se para um confronto que valeria mais para eles do que para seus treinadores.

— Wooper, Slam!
— Deixa não, Quagsire! Double Slap!

O pequenino correu na direção do oponente e saltou, pegando impulso com sua cauda. Wooper mirou na direção de Quagsire, que rebateu o golpe atingindo o rabo do Pokémon de Ethan com seu poderoso rabo, surpreendendo-o. Wooper virou no ar e Quagsire girou seu corpo 180° para atingir novamente o oponente com seu rabo, arremessando-o pelo ar.

— Wooper! — Exclamou Ethan.

O pequenino usou sua cauda para girar seu corpo no ar e pousar majestoso no chão. Ele já estava acostumado com os ataques de Quagsire. Afinal, ele havia sido seu mestre e seu líder na gangue.

— Quagsire, não o deixe tomar vantagem! Scald! — Ordenou Joey.
— Rebata com Mud Shot!

Um jato de água fervente saiu da boca de Quagsire enquanto bolas de lama eram atiradas de Wooper. Os dois ataques se confrontaram e se dissolveram no ar, tornando o piso do casco do navio altamente barrento e escorregadio. Joey sorriu.

— Wooper, vamos fazer um ataque direto. Water Gun, agora!

Wooper disparou um potente jato d’água na direção de Quagsire que nada fez. O ataque não pareceu surtir efeito algum.

— Você está lutando num campo em que eu tenho total controle, Ethan. Deixa eu mostrar como é que faz. —Joey sorria maliciosamente e deixava Ethan irritado. — Mud Bomb!

Aproveitando-se do piso enlameado, Quagsire formou uma grande bolha de lama e atirou-a em Wooper. A grande bola de lama deixou o pequeno atordoado.

Quagsire metralhava pedaços de lama na direção de Wooper, que nada podia fazer, já que era cada vez mais enterrado pela lama.

— Wooper! — Exclamou Ethan.

Era inútil. Wooper não tinha braços. Quanto mais mexia seu corpo para tentar se livrar do ataque, mais preso na lama ele ficava. Então, inconscientemente, ele passou a tornar-se maior. Seu corpo passou a emanar um forte brilho. Dois braços surgiram e as barbatanas em suas bochechas sumiram. Agora haviam dois Quagsire em campo, e o de Ethan se livrou da lama com um redemoinho de água que criou em sua cauda — era o Aqua Tail.

Wooper, você evoluiu... Que demais! — Ethan comemorava com vontade.
— Por essa eu não esperava... Quagsire, é melhor a gente não arriscar. Aqua Ring!

O Quagsire de Joey envolveu-se em um véu de água que visivelmente recuperou parte seus danos e curou seus machucados, deixando-o revitalizado.

Ethan assustou-se.

— Não acredito! Seu Quagsire está melhor que o meu!
— O melhor do combate é a estratégia. Scald!

O Pokémon de Joey lançou um poderoso jato de água quente na direção do Quagsire de Ethan, que desviou e correu para frente, mirando em seu oponente. Uma de suas patas brilhou em um branco-gelo e um poderoso soco fora desferido no Quagsire de Joey.

— É o Ice Punch! — Exclamou Joey.

O Pokémon de Joey ficou atordoado. A parte de seu rosto onde havia sido atingido pelo soco de gelo do Quagsire de Ethan estava com alguns pedaços visíveis de gelo. Quagsire balançou a cabeça para livrar-se deles.

— Quagsire, Aqua Tail! — Ordenou Ethan.
— Use o Scald! — Disse Joey.

Os dois Pokémon lançaram os golpes simultaneamente. O Aqua Tail do Quagsire de Ethan atingiu o Scald do Quagsire de Joey e o partiu ao meio, atingindo seu rosto, deixando-o atordoado. Era visível o cansaço dos dois.

Ethan gritou “Slam!” ao mesmo tempo que Joey berrava “Mud Bomb!”.

O Quagsire de Ethan correu em direção ao oponente e, com uma investida, o derrubou no chão. O Quagsire de Joey, no entanto, atirou diversas bolas de lama no rosto do oponente, fazendo-o tampar o rosto para se proteger.

Scald! — Exclamou Joey.

O jato de água quente atingiu Quagsire em cheio que dessa vez, não conseguiu se manter de pé, caindo nocauteado.

Um silêncio tomou conta do local. Todos os espectadores estavam anestesiados pela batalha.

— A batalha foi rápida, mas o vencedor foi o Quagsire do participante Joey! — Anunciou Bob.

Ethan fechou os punhos com força. Decepcionado, recolheu Quagsire em silêncio e encarou a PokéBola.

Joey aproximou-se do rival.

— Ethan, está tudo bem?

O garoto o encarou com os olhos marejados. Ele se esforçava para não chorar.

— Tá tudo ótimo. Parabéns pela sua vitória, Joe! — O garoto estendeu a mão para o rival. Ao olhar para o lado, viu os olhos de Gabrielle o penetrarem profundamente.

Ethan se retirou dali em silêncio em direção às cabines do navio. Não ficaria para a premiação de Joey.

Amy e Forrest, do meio da multidão, seguiram o amigo.

***

— Seu próximo desafio será contra a Jasmine. Você não poderá vencê-la se continuar com esses pensamentos negativos. — Disse Amy.

A garota estava encostada em um dos armários do quarto com os braços cruzados. Olhava para Forrest, sentado no chão à sua frente, e para Ethan, que estava sentado na parte de baixo do beliche, olhando emburrado para a paisagem na janela.

— Eu nem sei mais. Eu tava tão convencido de que iria vencer... Eu não sei o que aconteceu... — Suspirou o garoto.
— Talvez a chave seja isso. Você se convencer de uma vitória antes de ela existir de fato. Veja suas batalhas de Ginásio, por exemplo... Você imerge na batalha e esquece do resto. Derrotas são necessárias. Analise seus erros e torne-os acertos na próxima batalha. — Comentou Forrest.

Ethan o olhou com uma expressão irônica.

— Você sempre tem essas frases filosóficas nessas horas. Depois me passa esse seu livro motivacional pra eu tacar ele longe.

Forrest ficou sem graça.

— Ah... Desculpa.

O apito do S.S. Aqua soava. A cidade de Olivine aproxima-se. Já entardecia e o céu alaranjado saudava novamente o navio.

Ethan mudou sua expressão.

— Olivine... Finalmente voltamos. Vou pegar a Flaaffy de volta e junto dela, minha sexta insígnia. — Disse o garoto sério.

Amy e Forrest se entreolharam. A garota dirigiu-se até a janela.

— Espero que com esse remédio, Amphy fique bem. — Suspirou preocupada.

Após encontros, derrotas e despedidas, Ethan, Amy e Forrest aproximam-se de novo da Cidade de Olivine com o objetivo agora de entregar o remédio para a plena recuperação do Ampharos de Jasmine, que vive no topo do Farol Cintilante, que está muito doente. A corrida agora é contra o tempo.



TO BE CONTINUED...

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